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O mito do brasileiro criativo e a resistência a ideias novas

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“O brasileiro é criativo, o brasileiro é inovador.” Eis aí uma das maiores farsas da autoimagem nacional. Se isso foi verdade algum dia, o presente nega com todas as letras o direito de nos arvorarmos como cultura em que o novo frutifica espontaneamente e a todo momento. Há resultados desanimadores nos números frios de pesquisas de inovação tecnológica no país, há a percepção de que não vivemos exatamente uma efervescência nas artes e há a certeza de que o futebol brasileiro, por muito tempo nosso lastro de respeitabilidade no mundo, está em descompasso com a modernidade.

Pior do que tudo isso é a recusa em abandonar velhos métodos e abraçar o diferente. O Brasil atual aparenta ser mais um idoso ranheta do que um moleque entusiasmado.

A passagem do técnico colombiano Juan Carlos Osorio pelo São Paulo Futebol Clube é uma excelente ilustração do que está acontecendo na relação entre os brasileiros e as novas ideias. Não só revela o estado depauperado de nossa maior expertise, mas a resistência em mudar esse quadro. E o que ocorre no futebol se estende a vários outros campos da vida nacional.

Testemunhamos uma relutância a mudar carcomidos hábitos, ao mesmo tempo que existe um temor de perder privilégios e lugares cativos. Parece que é necessário todo dia um 7 a 1 diferente que nos faça refletir sobre o que está dando errado.

A própria vinda de Osorio é praticamente um milagre. A aposta em um nome desconhecido para o público geral, embora tivesse credenciais sólidas, foi uma surpreendente atitude de coragem da patética diretoria do São Paulo, aquela de bate-bocas, porradarias vexatórias e traições entre seus integrantes.

Mas a partir da chegada do colombiano e a esperada introdução de seus novos métodos, cartolas do clube se juntaram à parte da torcida e parte dos comentaristas na desconfiança quanto ao seu trabalho. Às vezes parecia sabotagem. Às vezes parecia medo de que a aposta desse certo. Um estrangeiro a nos ensinar a jogar bola, vejam só.

Criticamos o calendário brasileiro, que desgasta o estado físico dos jogadores. Osorio decide implementar um rodízio, de forma a resolver esse problema e também a armar o time conforme as características do adversário da rodada. É uma filosofia nova para o país, uma aposta a sua implementação no dia a dia. Vieram derrotas e os altos e baixos na campanha, previsíveis em uma situação assim.

O que Osorio escuta de dirigentes, torcedores e comentaristas? Que é um Professor Pardal. Ou seja, “inventa muito”. “Não consegue triunfar fazendo o básico.” Após uma derrota corriqueira, chegou-se ao cúmulo de o colombiano ser torpedeado pelo SMS de um dirigente com críticas frontais ao seu novo método.

A esse quadro de desconfiança some-se outro traço lamentável do Brasil de hoje e de sempre: a falta de transparência. São as meia-histórias com que convivemos todos os dias.

Nas negociações para sua vinda ao São Paulo, o técnico não foi informado que o clube enfrentava uma grave crise financeira e mais tarde veria seu elenco se esfacelar. Não teria à disposição o material humano com que contava para o seu projeto. “Não confio no que dizem os dirigentes”, declarou uma vez.

Mesmo assim ele sabia que seria responsabilizado pelo eventual revés desse projeto e que teria um tempo nada adequado para alcançar êxito.

“Quatro derrotas e eu não estarei mais aqui”, disse Osorio, escancarando a falta de paciência com processo e planejamento de longo prazo. E o recado se estende a torcedores que não se esforçam para tentar entender o que está sendo feito e se regozijam em reclamar, reclamar e reclamar sem contribuir em nada, nem aos seus próprios espíritos.

E assim aparece outra característica infeliz do Brasil: o nosso costume de aguardar um salvador inesperado, um toque de gênio, uma solução deus ex machina. Um milagre que premie a nossa preguiça, porque milagres podem premiar desesperados de todas as matizes. Osorio não ia mudar a situação do São Paulo da noite para o dia.

Ele se vai, mas os nossos problemas estarão aqui para nos afligir. São problemas concretos, que transpõem o São Paulo Futebol Clube e o futebol brasileiro. É um estado de espírito que não se encontra aqui nos dias de hoje. Em 2015, a criatividade para superar obstáculos é tão real e tão brasileira quanto o saci-pererê.

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“E eu saí de lá pensando em tudo na vida. Entende?”

Não quero perder esse belo depoimento. O Instapaper não me deixa salvar o link do Facebook. E não se sabe se o Facebook vai durar nem se vamos achar esse texto por lá tão fácil. Então…

Quando eu entrei no Olympe, o melhor restaurante do Rio, ontem, achei tudo bonito.

A mesa, cheia de talheres, de taças. Vários pratos. Tudo limpo, silencioso, tinha flores, garçons mais educados no trato que muito universitário ativista libertador do mundo.

Eu fui nesse restaurante por causa da Su. Ela queria me levar prum SPA, e eu sou homem de SPA? Eu, todo gordo?

Como recusei, decidi ir a algum lugar que ela, como aluna de gastronomia, gostaria de ir. Eu tinha guardado uma grana pro meu aniversário e, como não sou de comprar nada, decidi fazer algo com ela.

Ela escolheu o Olympe. Su não tem meio termo. Morou em São Francisco, meu amigo. Sabe falar “Cordon Bleu” igual francês.

Antes da comida chegar, toda uma cerimônia, uma servição de água mineral, um cardápio fortemente fornecido nos argumentos financeiros, mas eu olhei em volta, e me senti pequeno.

Meu primeiro emprego foi de porteiro. Um dos melhores empregos que tive foi vendedor de revista religiosa. Na rua. Já entreguei quentinha, já entreguei propina, já pulei muro de trem.

Eu travei. E chorei uns minutos. Não merecia estar ali, e no entanto, estava.

Veja, como é a vida.

Uma atriz, sentada ao nosso lado, disse ao maitre: “Tem alguma coisa nova? Me traz algo novo, por favor.”
E pra mim, tudo ali era novo, distante, outro mundo.

O conflito entre o eu pobre e o eu menos pobre que pôde ir no Olympe pra comemorar a única vez na vida em que fará 40 anos foi forte no momento em que a comida chegou.

Eu chorava na frente da Su, e não tava disposto a dar explicações. Meu camarada: ser pobre é uma merda. Você nunca vai se achar um dia apto pra desfrutar a vida. A pobreza é uma parada que fode a alma da galera mundo a fora.

O chef veio conversar com os clientes nas mesas, e com a gente.

Foi quando chegou o Boeuf de mignon com One Thousands of Sacanagens e molho de Bagulets Frescos, e a primeira coisa que eu falei pra ele, sem lhe devolver o boa noite, foi:

-Como se come isso?

Claude sorriu e me disse: Como você quiser, meu caro. Com garfo, faca, com as mõons, como quezer.

Eu desmontei o prato, bonito, e passei a faca na carne. Foi quando percebi que ele me olhava, curioso, e perguntou o que estávamos achando.

Só lembro mesmo disso.

Porque a resposta deu origem a quase uma hora de conversa, sobre a vida, o Brasil, a Zona Norte, a época em que ele trabalhou como chef para o Fernando Henrique, a minha cachorra, Madureira, as histórias de vida da Su, meu aniversário, e a diferença entre o podrão de Marechal Hermes e a comida servida ali.

A atriz acabou entrando no papo. Meio que todo mundo juntou as mesas.

No fim, veio uma sobremesa com vela, e o time todo cantando parabéns.
Eu pensei muito na vida, como um silêncio naquela hora, que a vida passa, e que comemorar enquanto dá é o caminho.

Quando levantei pra ir pagar a conta, o maitre disse que Claude nos dava o jantar como convidados dele. Eu levantei e dei um abraço em todo mundo que vi pela frente. E meu cartão do Bradesco gritava Aleluia.

Eu dei um abraço no Claude, disse que tinha como pagar, mas ele disse que não tinha nada a ver. A noite foi importante pra ele. Ele queria me dar isso.

E nos levou na cozinha. E a Su conheceu tudo. E ganhamos um vinho. E o convite pra voltar em 3 de dezembro de 2015.

E eu saí de lá pensando em tudo na vida.
Entende?

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Meditação e a era da gratificação instantânea

LodroSignLodro Rinzler escreveu um livro sobre a prática do budismo nos tempos de hoje – do Facebook, do sexo casual e de outras atrações nada sacras. Vale a pena ler a entrevista com ele.

Uma das coisas que mais chamou a atenção em suas frases foi o fato de que a prática da meditação não se adapta à cultura de gratificação instantânea. É difícil, exige disciplina, paciência e atenção para notar as mudanças sutis em você. Mas, sim, quanta diferença na vida.

“It’s not an easy thing to do. It’s frustrating. It’s hard. Sometimes you’re bored. Sometimes you want to leap off the cushion even though you have to sit for another seven minutes and it’s only been three so far. We’ve just gotten really used to instant gratification. This culture of instant gratification just blows my mind. And meditation is not that. Meditation is more like, “Uhhhh, I’ve been doing this for days, or weeks, or months, and I’m not exactly sure why it’s not helping me.” But, something very subtle might be taking place. It’s not always so obvious that we feel propelled down the path and want to do it 24/7. So, I think that’s going to be a major obstacle for people, long-term: the fact that we have to commit to it and sink into it before we actually see results.”

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Como você percebe a realidade

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Esse é um texto muito bacana da ‘New Scientist’ dentro de um especial deles sobre o que é a realidade e como ela é percebida. No artigo, a ideia de real é discutida sob alguns parâmetros da física quântica. O comportamento de partículas mais básicas é definido por alguns modelos e se sabe que existe mais de um jeito de elas se movimentarem. O problema é que quando é feita observação nota-se apenas um desses movimentos. Por que será? É porque, defende uma das teorias, a nossa mente só consegue perceber uma dessas ‘realidades’, não tem capacidade de perceber as outras. Ou seja, deixamos escapar as outras. Fascinante à beça. Dê uma olhada:

Reality: How does consciousness fit in?

DESCARTES might have been onto something with “I think therefore I am”, but surely “I think therefore you are” is going a bit far? Not for some of the brightest minds of 20th-century physics as they wrestled mightily with the strange implications of the quantum world.

According to prevailing wisdom, a quantum particle such as an electron or photon can only be properly described as a mathematical entity known as a wave function. Wave functions can exist as “superpositions” of many states at once. A photon, for instance, can circulate in two different directions around an optical fibre; or an electron can simultaneously spin clockwise and anticlockwise or be in two positions at once.

When any attempt is made to observe these simultaneous existences, however, something odd happens: we see only one. How do many possibilities become one physical reality?

This is the central question in quantum mechanics, and has spawned a plethora of proposals, or interpretations. The most popular is the Copenhagen interpretation, which says nothing is real until it is observed, or measured. Observing a wave function causes the superposition to collapse.

However, Copenhagen says nothing about what exactly constitutes an observation. John von Neumann broke this silence and suggested that observation is the action of a conscious mind. It’s an idea also put forward by Max Planck, the founder of quantum theory, who said in 1931, “I regard consciousness as fundamental. I regard matter as derivative from consciousness.”

That argument relies on the view that there is something special about consciousness, especially human consciousness. Von Neumann argued that everything in the universe that is subject to the laws of quantum physics creates one vast quantum superposition. But the conscious mind is somehow different. It is thus able to select out one of the quantum possibilities on offer, making it real – to that mind, at least.

Henry Stapp of the Lawrence Berkeley National Laboratory in California is one of the few physicists that still subscribe to this notion: we are “participating observers” whose minds cause the collapse of superpositions, he says. Before human consciousness appeared, there existed a multiverse of potential universes, Stapp says. The emergence of a conscious mind in one of these potential universes, ours, gives it a special status: reality.

There are many objectors. One problem is that many of the phenomena involved are poorly understood. “There’s a big question in philosophy about whether consciousness actually exists,” says Matthew Donald, a philosopher of physics at the University of Cambridge. “When you add on quantum mechanics it all gets a bit confused.”

Donald prefers an interpretation that is arguably even more bizarre: “many minds”. This idea – related to the “many worlds” interpretation of quantum theory, which has each outcome of a quantum decision happen in a different universe – argues that an individual observing a quantum system sees all the many states, but each in a different mind. These minds all arise from the physical substance of the brain, and share a past and a future, but cannot communicate with each other about the present.

Though it sounds hard to swallow, this and other approaches to understanding the role of the mind in our perception of reality are all worthy of attention, Donald reckons. “I take them very seriously,” he says.

Michael Brooks is a consultant for New Scientist, and author of The Secret Anarchy of Science (Profile/Overlook)

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Oscar Niemeyer 1907-2012

niemeyerTive o privilégio de conversar por mais de 1 hora com Oscar Niemeyer pela Folha de S.Paulo em 2006. A ocasião eram os 40 anos do edifício Copan, até hoje um dos meus cenários favoritos de São Paulo. Me espantou a lucidez e até a malandragem na hora de responder as perguntas mais capciosas.

Curva do Copan é a linha do terreno, diz Niemeyer

DO ENVIADO ESPECIAL AO RIO

“Isso é uma bobagem”, costumava responder Oscar Niemeyer, lacônico, quando questionado sobre a época em que projetou uma série de edifícios em São Paulo nos anos 50, sendo o Copan o principal deles. No entanto o maior arquiteto brasileiro, 98 anos completados em dezembro, já se dispõe a comentar as realizações daquele período na cidade.

Em entrevista à Folha por telefone e depois em seu escritório no Rio, de onde se visualiza a praia de Copacabana do alto, Niemeyer afirma que a forma do Copan, antes de ser um elogio à curva -marca do arquiteto-, apenas acompanhava as dimensões do terreno localizado nas proximidades da avenida Ipiranga. “A arquitetura é feita de programas, do terreno e da invenção do arquiteto. Quando eu fiz o Copan, a rua era curva, e ele [o prédio] seguiu essa curva. Nada mais natural.”

E o que opina Oscar Niemeyer sobre a forma como foi construído o Copan? “Foi um projeto que eu fiz com outros colegas para São Paulo, convidado pelo Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, que deu impulso inicial ao projeto de construção e comercialização do Copan]. É da amizade com Frias que eu me lembro quando falam do Copan. É um prédio de apartamentos, simples. É um prédio que está bem.”

Estudiosos da obra de Niemeyer dizem que os trabalhos do início da década de 50, empreendimentos imobiliários realizados durante o “boom” da construção em São Paulo, sofreram mudanças, muitas vezes sem que o autor tivesse sido consultado.

Essas incisões descaracterizaram as idéias originais. No caso do Copan, isso ocorreu principalmente a partir de 1958, quando o Bradesco assumiu a obra após a falência da empresa originalmente responsável pelo projeto. Niemeyer, decepcionado, chegou a expressar ao amigo Carlos Lemos que os projetos dessa época não são de sua criação -Lemos recebeu procuração para tocar o Copan depois que Niemeyer foi a Brasília, mas também foi voto vencido em alterações no projeto.

Os andares de um bloco, que haviam sido projetados para abrigar um único apartamento, foram divididos em quatro para facilitar a comercialização dos imóveis. Uma rampa imaginada para a frente do Copan foi eliminada por decisão dos engenheiros.

E o que diz o criador sobre as alterações no projeto original? “Foram pequenos detalhes. Indiferente. Mas isso foi tão longe [no tempo]…” O senhor não quer comentá-las? “Não… quero discutir a [remoção de parte da] marquise do [parque] Ibirapuera. Aliás também cansei de discutir isso.”

Oscar Niemeyer segue trabalhando, agora só pelas manhãs, e reserva a tarde para receber os amigos -exceto às terças, quando participa de discussões filosóficas. Seu mais recente projeto, um complexo cultural de 222 mil m2, é disputado pelas cidades espanholas de Oviedo e Avilés, cujos prefeitos estão se digladiando para abrigar a criação do arquiteto. Talvez seja certo dizer que nem passa pela cabeça de qualquer um dos dois alterar as linhas desenhadas pelo arquiteto.

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