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“Whiplash”: precisamos de pessoas escrotas para nos levar além?

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“Not quite my tempo.” Não está bem no meu andamento. Esse é o bordão de “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, em um momento de pré-ebulição do filme, uma cena em que o professor está próximo de submeter um de seus alunos a uma sequência de humilhações morais até obter a resposta certa.

É um filme sobre jazz, sobre música, mas não há feeling, é pura mecânica do ritmo, como se o negócio fosse matemática. Ele se desenvolve em boa parte como um “Karatê Kid” menos inocente, o conto do menino com cara de bonzinho que enfrenta uma sequência de provações e consegue ir além de seus limites – o roteiro inclui um twistizinho nesse esquema lá para o final.

A história, de qualquer forma, levanta uma bola interessante. Uma pessoa escrota no papel de tutor e com grande domínio de uma técnica é imprescindível para a grandeza de um resultado?

“Whiplash” defende essa tese com ressalvas. Digamos que espalha ao longo do roteiro uma ou outra senha para indicar que essa via pode ser perigosa e que não está glorificando o tratamento de choque. Mas, para entrar na pele do protagonista e vivenciar o clímax, o espectador precisa aceitar que a superação tem como condição passar por abusos morais e, às vezes, físicos.

“Não há duas palavras mais prejudiciais no inglês do que ‘good job'”, diz o mestre carrasco ao garoto. Essa fala parece direcionada a uma cultura atual que defende o elogio e o reconhecimento como forma de incentivar seus pupilos. Dá a entender que vivemos uma zona de conforto permanente, de alunos e subordinados mimados.

A superação é formadora de caráter, nos orgulhamos de ter passado por provas de fogo e estamos aqui para contar como fomos fortes. Mas é necessário passar por um relacionamento abusivo, por tortura psicológica ou desprezo público?

No livro “Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar”, o prêmio Nobel Daniel Kahneman conta a história de erros, acertos e broncas em pilotos da força aérea israelense. Em seu estudo, ele descobriu que estatisticamente a escrotidão do mestre não é determinante para melhorar a performance do pupilo.

Ele chama isso de “regressão à média”. Pilotos que tiveram uma performance muito ruim conseguiram um resultado muito superior no voo seguinte. A comida de rabo dada no cadete, no entanto, levava o crédito pela virada no jogo. Kahneman constatou que o piloto teria um desempenho melhor de qualquer forma. Não é bem um “tanto faz”. O que foi analisado aí foi a crença na relação causal mestre escroto-aluno melhor.

Descobertas como essa não diminuem a fascinação por figuras como Steve Jobs, gênios mercuriais que não param de exigir o melhor nem na hora de tomar café (Jobs fez um barista chorar porque o preparo não estava do jeito que ele queria).

É inegável que superar dificuldades é marcante e positivo na vida de qualquer pessoa. Nos faz melhor. Mas legitimar a escrotidão como força-motriz só tem graça em um Pai Mei, o mestre chinês das artes marciais de “Kill Bill”. Sua eficiência é muito mais folclore, daqueles que ficam bons em história.

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