Escritos

O que você acha versus o que os outros acham

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Num começo de noite de uma sexta-feira surge a notícia de que Roberto Gómez Bolaños, criador de Chaves e Chapolin, havia morrido no México aos 85 anos. As próximas horas dentro do Facebook seguirão um roteiro já familiar nesses momentos: primeiro entra o “Caramba! Morreu fulano! Não posso acreditar!” seguido de “Então é verdade. Minha vida não seria a mesma sem ter visto fulano! Obrigado por tudo” ou “Tô vendo muita gente prestar homenagem agora. Nunca fui fã de fulano, mas sempre respeitei o trabalho. Que descanse em paz”.

Você retoma o que fazia antes ou começa a perder tempo em uma nova aba do navegador. Dez minutos depois, dá o comichão de espiar como anda o Facebook sob o impacto da morte de fulano. Você cede à tentação, interrompe seu trabalho e abre o Face. O primeiro post a aparecer é “Ai, posso falar? Muita gente vai querer me matar aqui, mas nunca aguentei assistir fulano. Que negócio mais sem graça era aquilo! Pronto, falei, ufa!”. Seis curtidas e um comentário.

A dinâmica é conhecida, mas ainda está para vir a geração que vai encarar essa sequência como parte natural da vida – “ué, o mundo é assim”. À atual, basta um leve esforço para lembrar o tempo em que não existia Facebook nessas horas. Morria alguém que todos conheciam e, fato, verbalizava-se mais ou menos o que se lê hoje na internet. Além dos lamentos e críticas, não demorava muito para aparecer piadinhas, um tempo em que os memes eram só no boca a boca (“quando Senna morreu só Damon Hill”).

Tudo suavizado, no entanto, pela preocupação social de não ofender o colega no contato cara a cara. Mesmo que alguém soltasse uma opinião mais direta, momentos depois ela se perderia ao vento. Raro era sair ofendido ou incomodado depois de jogar essa conversa fora sobre alguém que você conheceu pela televisão.

Hoje as distintas opiniões sobre fulano ou um tópico são bombardeios. Parabéns se você é indiferente a isso ou exerce um grande autocontrole diante da grande emissão de visões de mundo não solicitadas. Aos menos fortes, a realidade:

1. Você provavelmente vai continuar no Facebook

2. Sim, eu, você e a maioria das pessoas têm em alta conta as próprias visões e vamos nos julgar em posição de comentar os principais eventos do mundo hoje. Jaz morta a frase “ninguém pediu sua opinião”. Graus de babaquice nos posts podem variar, mas de forma geral vamos conviver com a ciranda de “eu acho que…”.

3. As opiniões contrárias à sua ou desafios diretos à ideia que você tem sobre determinado assunto (respostas ao seu post), se pronunciadas de forma equilibrada, possuem todo o direito de existir. Certas ironias inseridas devem ser toleradas.

Há sempre a considerável opção de rejeitar tudo e se mandar do Facebook. Mas se a ideia é permanecer, daquele jeito envergonhado (ó! Queria ser o amigo do vizinho do primo que deletou o perfil e “hoje está feliz da vida”), é preciso mudar a cabeça para conviver bem com essa dinâmica.

Aqueles que te ofendem tanto pela forma quanto pelo conteúdo devem ser eliminados da sua timeline. Todos os outros devem ser encarados com preparação zen.

Permanecer em qualquer rede social é aceitar doses diárias de ego trip alheia. E também ficar levemente aborrecido ou ter seu próprio ego lacerado ao se deparar de repente com um “que grande idiotice isso (insira algo que você goste ou respeite)!” dito pela pessoa com quem você tanto simpatizava.

É aquela solução fácil de falar e difícil de executar: não restará escapatória senão criar um equilíbrio. Há que prestar atenção em argumentos bem formulados que desmontam sua crença anterior. Acredite: seu ego sairá ferido, mas você sairá dessa melhor do que entrou. E há que deixar pra lá e perdoar os ataques de mau humor no Facebook contra as coisas que você ama.

Afinal, como levar a sério alguém que não soube compreender a genialidade de Chaves?

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