Escritos, golpe militar, Tailândia

Avise quem morre de vontade de um golpe militar – um despacho direto da Tailândia

image

Alerte sua família e seus amigos. O golpe militar que acham ótimo para resolver problemas é uma furada. Acompanho neste momento a aplicação dessa manobra, e o buraco aqui está aumentando em vez de ser tapado. Sei que por aí a ideia é considerada boa por muita gente.

Estou no país onde houve a derrubada de governo mais recente da história mundial, a Tailândia. O anúncio de que liberdades haviam sido suspensas foi feito na última quinta, dia 22 de maio, sem prazo de término. Promovido, claro, “pelo bem da nação”.

Para os tailandeses golpes de estado são uma rotina. São quase 20 em pouco mais de 75 anos, entre tentativas bem-sucedidas e fracassadas. Ou seja, uma balançada a cada 4 anos. A instabilidade política permanece mesmo com tantas viradas de mesa.

A maior justificativa para a atual é que foi preciso manter a ordem em um ambiente de rivalidade entre os partidários dos dois principais grupos políticos.

Dificuldade de entendimento, um preço que se paga na democracia e na vida em geral. Situação evitada apenas quando uma das partes envolvidas tem direito de se manifestar e as outras têm que se calar.

Muitos estão se perguntando na Tailândia: “era realmente necessário mais um golpe neste momento? Não havia uma forma mais madura como saída? O Exército precisava bancar o tutor tratando todos como crianças?”. Porque as consequências a serem enfrentadas aparentam ser pesadas em um futuro próximo.

Os primeiros efeitos são sobre o comércio. Vigora um toque de recolher – para o bem da nação, lembre-se – entre 22h e 5h. Lojas precisam fechar mais cedo e a vida noturna é praticamente inviabilizada.

Todos os canais de TV estão fora do ar. Em vez de sua novelinha, os tailandeses estão sendo obrigados por dias a encarar uma tela com o símbolo de um tal de comitê nacional do controle da ordem e hinos nacionalistas de fundo.

O turismo, responsável por 6% do PIB do país, o maior índice entre os países do Sudeste Asiático, certamente vai sentir o baque. Viajantes valorizam democracias como destino de férias, mesmo que seja só pra pegar uma praia sem pensar sobre sistemas políticos. Pois é. E se o turismo sofre queda, gente precisa ser demitida e toda a estrutura econômica em torno dele deve ser reduzida. O conceito de “pelo bem da nação” em um golpe como esse começa a ficar insustentável.

Investidores também não gostam de golpes. Os mercados, em geral, preferem democracias. Elas são mais confiáveis.

“A tomada de poder não faz nada pela reputação entre investidores globais ou, de fato, turistas”, afirma à revista “Time” Mark Williams, economista chefe para Ásia da financeira Capital. É, não vai colar se falarem que isso é “papo de esquerdista”. É de pragmático capitalista. Lembre-se que essa lógica vale para os lados daí.

Quanto à manutenção da ordem, o motivo maior para esse golpe de estado, ela parece sob risco. Milhares de corajosos foram às ruas de Bangkok para protestar contra a intervenção militar e pedir a volta da liberdade. Mas o Exército já avisou que vai usar a força se as manifestações continuarem, ainda que sejam pacíficas.

Sei que fatos objetivos não são suficientes para mudar a ideia de entusiastas de golpes militares. É uma voracidade em relação a isso, uma vontade quase irracional. Isso me lembra a sabedoria da simples frase de uma obra da artista Jenny Holzer: “Proteja-me do que eu quero”.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s