Escritos, Jornalismo

Contra o comentário

Para a maioria das coisas existe o meio-termo. Para os comentários de internet, em que tudo é excesso e extremo, o meio-termo é impossível. Na verdade não quero falar dos comentários em si, da ausência de ponderação, da incapacidade de enxergar áreas cinzentas ou de considerar dois lados da moeda, em que o maior intuito é arrasar qualquer espécie de vida – de ursinhos de zoológico a viciados em crack.

Eu quero falar de algo maior: da plataforma, do mecanismo, do sistema. Naquela terra devastada, é preciso a intervenção de um exército de capacetes-azuis da ONU para tentar supervisionar e colocar ordem num país em que os indivíduos perderam a noção do limite, do respeito e das normas de convivência. Para permitir que os comentários existam em uma matéria de internet é necessária vigilância em ronda permanente. Ou isso ou nada. Não há um meio-termo.

O New York Times tem uma equipe de 14 moderadores de comentários. E nem todas as matérias estão abertas aos leitores. Sim, 14 é um número completamente irreal. 14 é o triplo (acho que está mais para o quádruplo) de jornalistas de qualquer editoria na internet brasileira (e acho que na americana também). Mas montar uma equipe assim, para quem pode e quem quer, é uma demonstração do tamanho do problema. É um esforço de civilizar um espaço selvagem.

A analogia pode soar desconfortável. Alguns radicais da livre expressão dizem que a moderação cria um ambiente artificial. Que a área de comentários representa nada mais o que as pessoas são. Que o anonimato justamente permite que elas sejam livres e digam o que se passa em suas cabeças. Moderar ou eliminar o espaço de comentários, para teóricos, é essencialmente elitista – “só os melhores pensamentos são aprovados”.

Até que faz sentido, não? Mas isso é uma bobagem retórica. Retórica, nada mais do que isso. Pura discussão filosófica sobre ser livre e sobre ser humano, com pouca valia no cara-a-cara, no espaço de convivência, nas normas de tratamento para com o outro.

Um obeso pode receber olhares curiosos ou desaprovadores na rua. As ironias verbalizadas são exceções e sempre chocantes. Há um limite. No espaço de comentários na internet ocorre um bombardeio de insultos que deprime qualquer um que saiba da importância do respeito ao próximo e, principalmente, que cada um tem sua história, que qualquer um pode ser tragado por um drama particular.

O mundo e as pessoas estão melhorando com o passar do tempo em relação ao comportamento agressivo, defende Steven Pinker no livro “Os anjos bons da nossa natureza”. Uma das razões é justamente a formação de uma mentalidade de respeito, que desabona o ataque gratuito simplesmente porque um é de determinada raça, orientação sexual etc. É difícil perceber isso, mas compare com décadas atrás. Avançamos muito sobre tolerância – mesmo que seja somente isso: tolerar.

O comentário de internet é a retomada de um espaço em que tudo isso cai por terra. É uma clara regressão do ser humano, considerando os avanços mostrados por Pinker. Legitima na cabeça dos que consomem isso em doses diárias a ideia de que é OK desrespeitar o outro de acordo com os mais frágeis argumentos. Só se faz ouvir pelo discurso raivoso em CAPS LOCK gritantes.

Por isso é um desserviço abrir os comentários se você não tem uma equipe preparada e numerosa como a do New York Times ou não se vale de algum outro esquema engenhoso que impeça o esgoto a céu aberto. A única alternativa a isso é silenciar essa balbúrdia inútil. Ao menos um pouco de paz.

Penso numa imagem bem literal: defender a existência dos comentários na forma atual é como impedir alguém de limpar o chorume que escorre pela rua onde todo mundo passa. Alguém já defendeu o direito do suco de lixo permanecer entre nós?

PS: leia uma entrevista com o editor de comentários do NYT.

Anúncios
Padrão

Um comentário sobre “Contra o comentário

  1. Change mal comido disse:

    Eu cresci na “selva” acho que me acostumei… fiquei triste …. mas tenho esperança de que a internet não vai ser toda como os comentários do MDM….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s