Escritos

A cruz de sal

UMANOA minha cabeça ainda se mantém fixa em Barcelona, naquela cena de 13 dias atrás, nas Ramblas. A concentração de quando em quando se desfaz obrigada por questões mais próximas, mais práticas e mais urgentes que ainda não foram permitidas na zona das prioridades, embora já devessem estar lá. Me posiciono em frente ao computador e não percebo a roupa úmida. Também só noto muito depois o odor criado pelo trajeto de 50 minutos do ônibus lotado e de janelas fechadas, encharcadas por fora e abafadas por dentro. Impaciente, checo o e-mail e só há uma mensagem, uma newsletter com outra lista de melhores do ano em qualquer coisa. Nada. Disso tudo eu só vou me dar conta, lá no futuro, ao olhar para trás: esse é o momento em que começo a esquecer Barcelona. Vou recordar outras vezes, algumas ainda de forma intensa, mas um processo muito bem definido acaba de ter início. Meu desejo agora é só o de tirar esse vestido, decidido sem muito gosto pela manhã, e tomar um banho quente.

Termino de me desfazer das roupas somente à beira do box. Debaixo do chuveiro vejo a água escorrer pela minha palidez e entro rapidamente em um estado de relaxamento, como há muito não conseguia.

***

Duas horas depois acordo revigorada, rápida nos pensamentos e com fome. Na cozinha, vejo no reflexo da tampa do fogão muitas luzes noturnas da vizinhança que giram e se diluem naquele vidro. Duas músicas de dois apartamentos diferentes se confrontam e depois se unem contra uma fala da novela. Ondas dessa atmosfera ruidosa neste verão muito mais quente que o normal poderiam me irritar. Mas a energia do despertar é contagiante. Pego o iPad, me sento sobre a cama e apoio as costas na parede. Inconscientemente procuro algumas notícias, um desejo de recuperar o que havia perdido nos últimos tempos, e começo por qualquer coisa que seja.

A fluidez com que deslizo pelos blocos de chamadas do portal nem lembra o olhar cansado com que antes absorvia as tragédias do noticiário. O que há alguns meses era luta entre atração e ojeriza, agora é consumo de fatos sereno, sem pontadas de desespero. O tempo de abstinência havia tirado essa carga. Enquanto lia, seguia meu tique de embaraçar e desembaraçar as pontas dos meus cabelos.

Uma chamada levava ao desaparecimento de uma mulher, mais ou menos da minha idade. Como de praxe, uma primeira nota publicada sem muitos detalhes. Universitária saiu à noite e não dá notícias há dois dias. Amigos e família expressam preocupação.

Mas fui além das notícias e me deixei levar à área de comentários, prática que sempre me deu uma espécie de azia mental – embora fosse difícil de largar. Nunca compreendi a fundo o mecanismo por trás de continuar a insistir em uma sensação nauseante.

Imagem

Essa violência gratuita me atinge, me tira levemente do prumo. Sem perceber, passo o olho pelo resto:

ppk2sobrinho2vaTenho uma leve sensação de asco e deixo para lá o site. Zapeio inquieta entre os apps do tablet. Vem Barcelona de forma incômoda à cabeça, ainda que seja menos recordação e mais construção do que poderia ter sido um desfecho diferente daquela cena nas Ramblas.

Como aqueles que ingerem mais álcool mesmo sob a sensação de enjoo, não resisto e volto nervosamente a atenção para a área de comentários.

MULHER

CODIGO1ve2“Um troll que posta códigos” foi o único pensamento. Naquela hora eu não percebi, mas o comentário me intrigou mais do que devia.

***

Arranco os lençóis e começo a tirar a roupa em desespero na manhã seguinte. Não poderia perder a chance extra de rematrícula que tinham me dado na universidade. Abro mão do café da manhã e corro para pegar o ônibus.

Chego ao prédio da faculdade. Sinto uma movimentação nervosa na barriga. O longo e frio corredor de repente materializa Barcelona à minha frente e faz com que eu adquira um caminhar grave até atravessar a porta da secretaria. Entro rilhando os dentes. E na sala tudo passa. Finalizados os problemas burocráticos, o percurso de volta ao longo do saguão tem o mesmo espectro da primeira vez. A atmosfera de vazio lembrou a tristeza de diferentes dias na Catalunha. Tristeza que não resolveu nada ao final.

Desconfortável, saio dali. Procuro o prédio da Matemática como rota de fuga. Subo as escadas rapidamente, me agarro a uma cadeira dentro da sala de computadores e vou checar meu e-mail, só para aliviar a ansiedade. Há duas mensagens, uma sobre a nova edição de uma revista catalã de arte contemporânea e outra a respeito do encontro de final de ano da turma que ainda não pretendia rever. Muito cedo.

Olho para o lado e, à exceção de mim, todos parecem concentrados em seus monitores. Vejo o antiquado quadro de cortiça na parede e há o aviso de um seminário sobre códigos de computadores. Algo clica. Embora o propósito de embaralhar letras e números seja diferente em programação, isso me faz recordar o comentário estranho da matéria. Tento dar uma utilidade que seja à essa excursão patética. Jogo no Google para saber se há um modo de decodificação que me dê uma resposta rápida. Encontro um site com design ultrapassado, do fim dos anos 90. Copio e jogo a sequência numérica achada na seção de comentários da reportagem. Alguns segundos para carregar e surge uma explicação do código da mensagem: uma troca bastante básica, rudimentar até, de letras por números, como a = 1, b = 2. O resultado é o seguinte:

Letter Numbers3

Cruz de sal… cruz de sal… Faço a busca por “cruz de sal” ao mesmo tempo que noto a minha pele ficar escamada, com a passagem do calafrio. O Google me retorna, nas primeiras incidências, explicações sobre ritos católicos vindas de fontes pouco confiáveis. “Tentativa de purificação”. “Sinal de morte por um lado e ressuscitação do outro”. E uma notícia recente sobre a aparição de cruzes de sal em uma cidade a 110 km daqui. “Os símbolos aparecem de madrugada, e a população se depara assustada com isso ao amanhecer.” Era a décima vez em dois meses, dizia a reportagem, que os chãos de paralelepípedo do acanhado município eram cobertos por sal refinado.

***

Deitada no sofá – doação de uma amiga, solidária com a minha volta repentina – leio com o pescoço desconfortavelmente curvado o anúncio da polícia civil sobre a desaparecida no noticiário. O corpo foi encontrado. Uma parte foi incinerada. Segundo a descrição (sensacionalmente desnecessária), o rosto e parte do crânio frontal desapareceram, se tornaram irreconhecíveis queimadas. Difícil entender por que hoje as coisas parecem ter sempre qualquer contorno bizarro. O delegado diz que trabalha com uma ou duas hipóteses, mas declara que não pode revelá-las sob pena de prejudicar as investigações. Pede à população que colabore com informações.

A matéria acabava irritantemente com uma informação repetida, já lida em um trecho mais acima. Me agito na cama. Fico sentada com as costas eretas e os pés no chão. Logo depois do final da nota estavam mais comentários.

churrasco2

codigo2ve

Na rápida escaneada dos meus olhos sobre os números na tela me pula o 19. Porém, imediatamente dou Ctrl+C nesse trecho da página e lanço, com o Ctrl+V, a mensagem no site de decifração descoberto no prédio da Matemática. Vem a seguinte tradução:

trad2

***

É começo de tarde. Mais uma vez me pego no meu tique mais característico, o que as pessoas mais associam a mim, o de usar meus dedos para desarrumar e arrumar as pontas do meu cabelo. Uma mania que geralmente significava se ver submersa em reflexão.

Penso que chegou a hora de voltar à superfície, mas me refiro à vida como um todo: será uma espécie de encerramento de um capítulo. Encaro a panorâmica de tom verde através da janela do ônibus que corre rumo ao interior sem prestar atenção – só um fundo para despejar os pensamentos. Será um estranho desfecho, a princípio não muito adequado àquela história, a princípio sem que eu enxergue uma relação, mas eternamente indissociável a ela.

Desço do ônibus após 100 km em uma hora e meia. A rodoviária esculachada me recebe mal. Eu me preocupo logo em dar cabo desse ritual de finalização, para acelerar a minha próxima fase. Caminho pela cidade em um meio de tarde bonito, com ar de preguiça típico do interior que não se importa em ser caipira. Pergunto a uma moça de uns 40 anos sobre a famosa cruz de sal.

Esperei um ar desconfiado, mas havia simpatia no rosto depois de me ouvir. Talvez encarasse como uma piada ou talvez eu não fosse a primeira pessoa a questioná-la, e ela percebesse que a cidadezinha estivesse a ponto de se transformar em um daqueles pontos turísticos bizarros. “É lá no cruzamento perto do morro, umas duas quadras lá pra cima.” Ela abriu um sorriso de novo e seguiu em frente.

24 horas depois da notícia de uma nova aparição e ela continua lá. Penso mordazmente que os caipiras não iam mesmo querer mexer com aquilo. Que viesse a próxima chuva ou ventania forte. Mas é compreensível o temor quando se vê aquela montagem estranha esparramada pelos paralelepípedos. O contraste do branco do sal com o chão é evidente e, embora já não mais perfeita, o formato de cruz ainda se mantém. Sinto agora que vai acabar.

Noto que algumas partes têm uma tonalidade mais escura. Lembro do último comentário críptico, me agacho para finalmente receber a revelação que se prometeu e colho os farelos da cruz com a minha mão em concha.

É puro reflexo. Solto de minha mão a substância poeirenta, uma textura que se torna escatológica assim que percebo que não é sal. É um nojo que eu nunca senti na minha vida, algo desesperador, e começo a chorar e inspirar/expirar freneticamente. Olho para o lado e a moça que me deu informação, a uns 100 metros, me observa detidamente. Mas não sorri mais. Ela percebeu que algo havia dado errado naquela excursão.

***

A polícia foi avisada das cinzas que eu tenho certeza serem do corpo daquela garota e também foi informada dos códigos nos comentários do portal. Como fiz com as próprias cinzas, largo essa história sem nenhuma intenção de ter isso de volta em minhas mãos.

Estou sentada no sofá, o dado pela amiga solidária com uma volta imprevista, por urgência. E pela última vez vou lembrar de Barcelona. Digo, obviamente, a lembrar com essa intensidade. Digo, como se esse trecho vivido há 15 dias fosse influenciar o que está logo por vir na sequência. Porque eu simplesmente tinha decidido que, pela minha sanidade, eu deveria parar de querer me perdoar por aquele dia nas Ramblas de Barcelona, entupida de caras e cores até não poder mais.

Entender aqueles olhos bem negros quando me miraram e disseram: “Eu sei o que você fez. Você é o que todo mundo chama de má pessoa”, ele desabafava com mágoa.
“Me dou conta que sou uma das poucas pessoas capazes de decifrar dentro de você essa maldade, que nem parece tanta num primeiro momento. As pessoas são capazes de tanta coisa.”
“Eu acho que eu nunca vou te perdoar por tudo isso… mas você confia que uma hora eu vou ceder, né?”
“Sabe de uma coisa? Nem sei por quanto tempo tudo isso vai ter importância para você.”
“A gente tá hoje aqui nas Ramblas falando sobre isso. Por quanto tempo você vai se lembrar disso?”
Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s