Escritos

Mais importante do que acreditar no Natal

Poucos dias atrás, em uma lista de internet, entrei num debate sobre o Papa Francisco. De um lado estava a ideia de que, não importam as atitudes, nunca dá para considerar legal o chefe de uma instituição imbuída do espírito de reprovar desde sempre “comportamentos desviantes” – e de propagar e reforçar a noção de que, por exemplo, ser gay, ateu ou antissistema é um “comportamento desviante”.

Do meu lado, considerei positivo um papa que, embora não combatesse esses conceitos dentro da instituição-igreja, emitisse diversas declarações em prol da tolerância. Sim, tolerar pode parecer insuficiente, já que aceitar é certo e totalmente natural para alguns de nós. Mas dê uma olhada no que afirmam por aí líderes islâmicos, judaicos, cristão-ortodoxos e, claro, Malafaias e Felicianos: é algo como “você vai parar no inferno e eu vou te infernizar até você se enquadrar”. Francisco chega a ser lamentavelmente apenas uma exceção entre religiosos.

A última dele foi dizer que tudo bem ser ateu conquanto se faça o bem. Sim, claro que é tudo bem ser ateu, padreco, não preciso que a minha alma seja salva e não há necessidade de fazer nada para que seja considerado tranquilo professar a minha não-crença. Porém, nessa era de gritos e vozes altas para afirmar nossas posições, nos esquecemos que a ênfase da declaração está voltada à atitude:

“Se nós, cada um fazendo a sua parte, se fazemos o bem para os outros, se nos encontrarmos lá, fazendo o bem, e ir devagar, com cuidado, pouco a pouco, nós faremos a cultura do encontro: precisamos muito disso”, disse o argentino. Lembra muito a ideia de um humanismo que muitos ateus pregam contra o “cada um por si” há tempos em voga entre várias pessoas, religiosas ou não. Acredito que, não fossem os abalos sísmicos que ruiriam sua própria posição, o papa cometeria a radicalidade de dizer que “mais importante do que acreditar em Deus é fazer o bem”. Afinal, veja, a distância para a primeira frase não é tão grande assim.

Essa cultura do encontro em que se faz o bem talvez esteja de certa forma ligada a uma concepção de divindade. Me faz saltar para a ideia de descoberta pessoal e única do divino (em um entendimento distinto do pregado superficialmente pelas religiões) do místico islâmico Muid ad-Din ibn al-Arabi (1165-1240). O contato com o outro, com o próximo, é peça fundamental. Karen Armstrong, no livro “Uma História de Deus”, descreve um dos pensamentos dele (a tradução/adaptação é minha):

“Ibn al-Arabi estava também convencido de que a imaginação era uma faculdade dada por Deus. Quando um místico tinha uma epifania, criava aqui em baixo uma realidade que só era mais perfeita no reino dos arquétipos. Quando nós vemos o divino nas outras pessoas, nós estamos fazendo o esforço imaginativo de desvelar a verdadeira realidade. […] O que começou como uma espiritualidade altamente personalizada, centrada no ser humano, levou Al-Arabi a uma concepção transpessoal de Deus.”

Al-Arabi se referia mais a epifanias típicas de religiosos malucos ao travar contato com outras pessoas (às vezes imaginárias). Vejo, no entanto, algo que pode perfeitamente se encaixar na “cultura do encontro”. Vou tentar explicar: é a perspectiva de ver o divino no outro. Certos contatos, certos encontros, principalmente quando se enxerga uma troca do bem, pode se imbuir do divino – que na minha visão representa simplesmente tudo que faz valer a pena viver.

O místico islâmico do século X continua na mesma sintonia desse papo todo aqui quando advoga contra a divisão da fé:

“Não se prenda exclusivamente a nenhum credo, porque assim você deixará de acreditar em todos os outros que restam. E assim você perderá muito, você fracassará em reconhecer a verdade da matéria. Deus, onipresente e onipotente, não é limitado a nenhum credo porque ele diz ‘para onde quer que você se volte, haverá a face de Alá’ (Corão, 2:109). Todos louvam o que acreditam; seu deus é sua própria criatura, e ao louvar esse deus você está apenas louvando a si próprio. Consequentemente você acusa o credo dos outros, algo que não faria se apenas fosse, mas sua aversão é baseada em ignorância”.

Certamente há coisas muito mais importantes do que acreditar ou não no Natal.

Com o desejo de um ótimo fim de ano e um 2014 ainda melhor, deixo vocês com “Look into Your Own Mind”, da maravilhosa Julianna Barwick.

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