Escritos

Fantasma

originalCheguei a conhecê-la. Não. É mais exato dizer que fui apenas apresentado a ela quando tinha 13. Depois, não tive mais qualquer tipo de contato ao longo de 20 anos. Digo contato se for considerado o que diz o dicionário – um mínimo de comunicação envolvida. Mas posso contar cinco ou seis vezes em que a avistei em um lugar bem distante de onde seria esperado. Na primeira vez, uma surpresa grau 1, reconhecimento simples, “ah, conheço”. Ela, com o olhar fixo para frente. Da quarta ocasião em diante, meu ceticismo foi desafiado, embora ele sempre tenha derrotado com facilidade a tese de haver um propósito nessa sequência de esbarrões visuais. Algo continuava impenetrável lá nos olhos, na expressão dela, no entanto.

Bem magra e alta, traços fortes de Oriente Médio sob a pele clara – poderia ser uma andaluza ou uma libanesa. Não era feia, talvez chegasse a ser bonita, mas qualquer sinal de charme era minimizado pelo jeito desengonçado e um estilo sem graça na escolha do que vestir. O rosto fechado ao caminhar pelo bairro também se reiterou quando a vi nos outros lugares. Na conversa em que meu amigo a apresentou, lá atrás, ela se desarmou e sorriu, mas não me pareceu aberta. Foi educadamente fria, provavelmente timidez, no contato comigo. Natália, Nat, dizia meu colega. Não me recordo como andou a conversa. “O que cê anda fazendo?”, essas coisas de gente que não se encontra com frequência.

Houve ocasiões, já fora das ruas do bairro, em que ela passou por mim na mesma calçada e houve outras em que identifiquei Natália da janela do ônibus. Como disse, a partir de um certo encontro, me surpreendeu o número de coincidências. Minha primeira casa era longe demais do centro da cidade. A improbabilidade apostava alto. Foi aí que me dei conta da cara de aflita como um ponto em comum de todas essas situações, exceto a do dia da apresentação. Já tinha me distanciado do meu amigo e qualquer tentativa de saber mais sobre ela me parecia um esforço desnecessário. Um enigma menor e esquecível.

E esqueci. Toquei a vida por alguns anos e fui visitando o meu antigo bairro cada vez menos. Uma vez por mês, por poucas horas em um domingo à tarde para manter meus pais satisfeitos a respeito de não esquecer as raízes. Com o trabalho agitado, com os problemas da vida pessoal agitados, com o fim das aparições-fantasma de Natália, os questionamentos se dissiparam. Por obrigação profissional, lia notícias sobre tudo – macroeconomia, política cultural, temas da cidade. Passei os olhos por uma nota menor, uma bizarrice que não ganhava muito espaço em um jornal de mais respeitabilidade. Nem a internet, sempre alerta para uma novidade esquisita, fez a história rodar.

Era o seguinte: um passante notou um odor rançoso perto do jardim de uma praça. Ao se aproximar de uma árvore, viu um cadáver putrefato sobre um galho grosso. Era um daqueles acontecimentos de sérias dúvidas sobre a verossimilhança, fantástico demais para estar à vista em uma região de circulação. A polícia identificou o corpo, e a matéria citava que havia sido encontrado 15 quilômetros distante de onde a vítima morava. Nomeava o bairro. Juntei idade, características e senti aquela intuição ruim. Era só um palpite, mas suficiente para me incomodar.

No dia seguinte, não foi feita uma “suíte”, uma nova reportagem sobre um caso, o que me lembrou a vez em que vi um corpo boiando no lago de um parque e me decepcionei pelo caso ser ignorado nos jornais. Ficou por aí, época sem internet, nunca soube se publicaram notícia disso.

Em um domingo de visita, reservei um tempo para visitar o amigo. Minha mãe ficou feliz pelo esforço em retomar o contato com ele e não protestou quando deixei a mesa do almoço sem me alongar na conversa.

Já tinha me certificado de que ele estaria lá. O amigo se surpreendeu quando eu apareci, fez uma saudação contida, de colegas que se reveem e sabem que o elo atual é praticamente inexistente. Quer uma cerveja? Opa, beleza, disse, mas com medo de ficar ainda mais sonolento. Começamos pelo terreno mais seguro, traçar o que cada um da turma fazia atualmente. Passamos para a parte de empregos e ele disse que ainda era obrigado a permanecer no bairro por conta da mãe, doente.

E esse crime que tava no jornal nesta semana, é uma pessoa do bairro, né? Ele fez uma cara de quem não entendeu muito bem e soltou um é, acho que é, aparentando incerteza. Comentei os detalhes horríveis e meu amigo não adiantou o papo.

Pouco hábil e muito excitado, emendei a pergunta que eu queria fazer, sobre Natália.

Quer dizer que você conhecia ela?

Nesse momento, pela minha cara, dava quase a entender que o real propósito de estar lá era por causa dela.

A Nat morreu.

Morreu? Como assim?, respondi.

Ele olhou para o lado e falou, se matou. Faz uns dois anos mais ou menos.

Imediatamente tentei fazer as contas de quando tinha sido a quinta ou sexta vez que a vi fora do bairro. Parecia coisa de um ano, um ano e meio. Em paralelo na minha cabeça, se construía a ideia do fantasma, de que era uma aparição. Logo corrigi na minha cabeça para algo mais consonante com meu jeito de raciocinar: só havia formado a imagem dela caminhando pela rua e certamente me enganado. Não, mais de dois anos, certeza, me apoiei nos meus cálculos.

Se enforcou, o amigo contou. O que o pessoal diz por aí, ele perguntou?

Tô sabendo agora só. Nem conhecia ela direito, devolvi.

Bom, a gente teve um lance, ele falou, em tom ligeiramente alto, praticamente atropelando minha resposta. Foi complicado, claro. Mas ela sempre teve os problemas dela. Sempre. Não foi por minha causa, já fazia uns 3 meses, mas todo mundo fica dizendo que foi por causa do namoro. Mas passou, encerrou ele, abrindo suavemente a expressão. E por que você perguntou dela?

Enrolei a explicação e achei que não havia razão para voltar a falar do crime da árvore e o meu engano. Nem sobre as cinco (ou seis vezes) em que avistei Natália por aí.

Ilustração de Vanessa Marques

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4 comentários sobre “Fantasma

  1. Coisas do google, acabei aqui por acaso (ou por colocar as palavras “erradas” na busca) mas acabei curtindo seus posts e já até compartilhei o das gordinhas gostosas com uma amiga. Muito legal!

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