Música

A garota neozelandesa e as semelhanças entre Brasil e EUA

Foi preciso uma garota de 16 anos criada do outro lado do mundo escrever uma música para que muitos se tocassem do cansaço com a estética do eu-sou-mais-que-você, de dinheiro, luxo, sexo a rodo, enfim, da exuberância irracional no pop de hoje. Você pode desprezar bom-mocismo em quem faz arte (pop), mas não há como ignorar que a mensagem passada em “Royals”, da neozelandesa Lorde, calou fundo em muita gente. Uma canção aparentemente simples, aparentemente nada demais, se tornou a grande surpresa de 2013 quando chegou ao topo da parada da Billboard.

“Toda música é sobre dentes de ouro, sobre Grey Goose [marca descolada de vodca], sobre cair pelos cantos do banheiro (…) Jatinhos, ilhas, tigres com colares de ouro”. É com versos desse tipo que “Royals” foi longe. Uma geração mais “saudável” à espreita, saturada com a pose falsa ou verdadeira de gângster, carente de alguém que subvertesse (ess)as regras? Talvez, mas o sucesso da faixa gerou discussões mais interessantes, que espelham muito bem a era de polêmicas, interpretações precipitadas e opiniões dadas a qualquer custo na internet. Muito barulho, mas por alguma coisa. Quem quer sempre aprende a cada controvérsia que aparece online.

A letra critica, óbvio, a autoafirmação e o exibicionismo dos rappers.  Um “não me representa” em forma de música. E acendeu o sinal amarelo das questões raciais nos Estados Unidos. Lorde, uma gracinha de menina com algo a dizer (e que vai estar no Lollapalooza 2014), começou a ser vista como uma possível porta-voz do conservadorismo branco norte-americano. Para se ter uma ideia do que representa essa discussão é só transportar esse cenário para o Brasil. Aliás, muitas discussões têm uma curiosa similaridade nos dois países. Basta trocar “questão racial” por “questão social”. As particularidades persistem, mas têm muito a ver o jeito como os exércitos de cada lado da batalha ideológica se posicionam e a maneira como os tiros verbais são disparados.

O maior fenômeno pop brasileiro hoje em dia é o funk de ostentação, nascido na Baixada Santista, assumido pela periferia de São Paulo capital e já aceito pelo Rio, berço do batidão brasileiro. A estética é igual à do hip hop americano, com as devidas adaptações aos objetos de desejo de uma parcela dos brasileiros jovens. Vídeos com carrões, gostosas, cédulas altas de real e as tatuagens na cara de MC Guimê, um dos mais bem-sucedidos nesse cenário, uma versão brasileira de Lil’ Wayne. “Música de bandido”, “música de favelado”, grita uma outra parcela de brasileiros, na atual movimentação tectônica das estruturas sociais brasileiras. Já o analista do Instituto Data Popular, focado em pesquisas sobre o comportamento da classe C ou “nova classe média”, afirma em um documentário que o funk de ostentação é a celebração da ascensão econômica e um símbolo da auto-estima elevada da população.

Dentro desta realidade, o que aconteceria se surgisse uma Lorde nacional? E o que seria dela caso fosse adotada por uma “Veja”, por um Reinaldo Azevedo que sempre se posicionou contra a mensagem do rap brasileiro – o antecessor do funk de ostentação na preferência da periferia urbana do país – assim como o radialista Rush Limbaugh faz na América? Muito provavelmente a nossa Lorde seria sentenciada ao rótulo eterno de coxinha. Algo bem mais brando que a sugestão de que a neozelandesa seja racista, mas ainda injusto.

Pois bem, o debate aqui é sobre os estereótipos impregnados em discussões online, em que a objetividade passa longe, muito longe. Ser contra o ideário do rap americano atual não significa preconceito. Não se sentir identificado com o funk de ostentação e isso indicar contrariedade aos avanços sociais no Brasil é uma associação simplista. A questão se mostra mais complexa. O vínculo automático a um dos lados nessas discussões é burro, mas é regra. O simplismo escorre em doses fartas nas controvérsias na internet porque é o caminho mais fácil, como visto nos brados de “Lorde racista” – ou o mais comum, a antipatia criada mecanicamente sobre a garota nos EUA.

Para aprender algo com essas balbúrdias, é preciso parar, respirar e olhar – não necessariamente para o que é mais confortável para você.

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