Escritos

Madrugada

mascara

 

 

 

 

 

 

 

Eu precisava sair de casa à 1 hora da manhã de uma terça-feira porque aquela ansiedade que batia de tempos em tempos voltou a aparecer. Anos e anos de avisos sobre os perigos da cidade vindos de todos os lados me deixavam inseguro para fazer isso. Mas a intranquilidade era maior do que a necessidade de jogar seguro naquele momento, então, antes de pensar muito, abri a porta e saí de casa.

A noite era quente, o que diminuía o meu medo da rua. Por ser dia de semana não havia tanta gente circulando, mas dificilmente diria que a cidade estava morta. O meu bairro tinha normas sobre barulho respeitadas sob o medo de multas e hostilizações da vizinhança, assim os bares já haviam fechado as portas. Um grupo de três pessoas em frente à maior das casas conversava baixo, concentrado, como se uma história séria sobre um conhecido estivesse sendo compartilhada agora porque antes não poderia. Minha vontade era ter direito de acompanhar o papo como se isso fosse natural, mas passei rapidamente por eles do outro lado da rua.

A sensação de desassossego, diferente da que eu experimentava em casa, mas semelhante a de outras vezes, formigou o corpo. Pensei nos notívagos que fazem largas caminhadas, sem rumo como eu, mas sem preocupação.Tinha que acordar cedo na quarta, mas lembrei da história de uma italiana que trabalhava 14 horas por dia até as 11 da noite e corria “a madrugada inteira” porque era sua paixão. Eu realmente jogava seguro na vida.

Continuei em frente, apesar da ânsia de desistir e voltar para casa. A presença de luzes algo como 2 quilômetros adiante me deu um norte mais definido e pareceu menos perigoso do que ensaiar o retorno. Uma garota na outra calçada andava sozinha, compenetrada, e eu pensei no quão corajosa era por andar vulnerável a uma tentativa de estupro. “Ser mulher não é fácil”, vi esses dias uma amiga postar no Facebook. Se a moça pode se arriscar porque eu não poderia? Ela ignorou a minha presença e pensei se eu aparentava algum tipo de ameaça. Tenho um rosto de traços finos, mas a mulher poderia ter enxergado algum tipo de brutalidade escondida – ou imaginada. Parar seria esse sinal. Prossegui.

As luzes estavam mais próximas, mas ainda eram só luzes. Tudo claro à noite, assim que é bom, me tranquilizei. Foi no meio desse pensamento que ouvi um “êêê” de vozes nos arredores e percebi o breu. Não tinha mais poste funcionando e nem a iluminação que me servisse de guia. Recordei o apagão de mais de dez anos atrás, também à noite, dentro de um prédio da faculdade. Tivemos que descer pelas escadas e do lado de fora o clima era de algazarra na Avenida Paulista. Durante este novo blecaute, senti um alívio cômico quando visualizei a capa do “Notícias Populares” toda negra e um “PUF!” gigante na manchete da época.

As vozes nos prédios ao redor me confortavam, mas a situação era muito nova para mim. Andar pela casa totalmente apagada dava um prazer infantil, como brincar de cego. O que acontecia agora certamente não. Fiquei por segundos, por menos de 1 minuto, parado onde estava. Me lembrou uma das grandes agonias da minha infância, imaginar estar se afogando em alto-mar, sem terra firme à vista, durante uma madrugada e sob a falta de ar e de claridade para entender a situação. O burburinho imediatamente após o apagão cedeu. Me senti extremamente vulnerável, alvo em potencial dos tantos crimes banais que somos notificados todos os dias, desafiadores da lógica sobre uma vida compensadora e feliz aos que respeitam os limites. Desejei estar em minha cama, alheio a toda esta realidade à minha frente.

A vinda de duas pessoas ao longe em meu sentido contrário fez com que eu, instintiva e estupidamente, descesse uma rua não muito familiar. Avistei alguém dentro de um carro estacionado, no banco do passageiro. Havia algo de diferente com essa pessoa. Ela vestia uma máscara cirúrgica. Me aproximei, embora temeroso, e vi que era uma idosa. Ela arregalou os olhos e logo agitou freneticamente os braços. Não houve muito tempo para racionalizar isso. Subi correndo no sentido oposto, aterrorizado pela conjunção de cenários de um blecaute e uma figura totalmente inesperada a me confrontar, mas rindo irracionalmente, como quando na infância tocava a campainha de uma casa e fugia desesperado por fazer algo não devido. No meio da ladeira me dei conta da estranheza de tudo isso. Mas era tarde demais para voltar.

xxx

Sonhei uma vez que minha namorada contava da vez que se aproximou de uma pessoa atropelada. Ela dizia: “Sabe o que é ser a última pessoa a ver alguém antes de morrer? Alguém que você não conhece?”. Depois de acordar, tomar banho e seguir para o trabalho, entrei no metrô. Uma moça com uma máscara cirúrgica, em pé e de frente à porta, me encarou por centésimos de segundo. Mas foi suficiente para sentir ansiedade e um mau presságio.

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