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Gostosas que se acham gordas

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Há algo curioso sobre um tumblr chamado ‘Gostosa que se Acha Gorda’. Antes de tudo: é um compilado de mulheres lindas sem fim – algo em sintonia com essa tendência moderna dos sites em que a barra de rolagem vai descendo, vai descendo e não se chega ao chamado ‘pé’ da página.

E quanto mais você desliza o mouse, mais claro é o sinal de que seus instintos estão no comando (algo que só mais tarde fica perceptível). Mulheres lindas com roupas comportadas, mulheres lindas de biquíni, mulheres lindas seminuas, mulheres lindas completamente nuas, da esquerda à direita da tela cheia.

Quando o racional está de volta ao volante, se percebe que você está em um terreno fora do convencional. O segundo se-dar-conta, já nessa fase dos impulsos controlados, é o como assim, fora do convencional?

O cérebro trabalha. Imagine uma sequência veloz de sinapses. A expressão ‘fora do convencional’ pisca, dentro do contexto ‘sexo’. Aí logo depois, sem que você note, pulsa ‘tara’ nesse jogo de correlação de palavras no interior da cabeça. E ‘tara’ você reprime. Mas, espera, por que você reprimiria essa atração (a cabeça faz rapidamente a correção do termo ‘tara’ para ‘atração’) por mulheres absolutamente cotidianas, lindas, mas cotidianas?

Ponto pacífico, não há necessidade de repressão nesse caso. Você de qualquer forma já se vê como um admirador da beleza feminina fora da curva (outra adaptação cerebral). Ou, ao não reprimir seu instinto de fazer infames jogos de palavra, se vê muito mais a favor das curvas. Mas a próxima sinapse acaba totalmente com a diversão: lembramos de coisas sérias e entediantes como padrões de peso impostos pelo mundo da moda, das adolescentes que morrem de anorexia e das colegas de trabalho que sempre falam em dieta com ar de tristeza.

Sinceramente eu não quero estragar a minha recreação com essa última parte. E tudo isso vem sendo debatido há anos sem que as mulheres – as maiores interessadas nisso – consigam chegar a uma solução a respeito do tema. Deixa para elas. O próprio nome do tumblr sagazmente brinca com os meandros da psiqué feminina: o autor seleciona as ‘gostosas’ e logo considera que as próprias eleitas se consideram ‘gordas’.

Faço contraste do meu prazer em ver esse tumblr à minha reação a uma campanha recente da C&A estampada nos pontos de ônibus. A modelo me pareceu esquelética, uma magreza que me lembrou (sério) Auschwitz. Eu obviamente não era o público-alvo da propaganda, porém, cliente ou não, senti um mal estar diante de um ideal de beleza que não me pareceu saudável – em mais de uma acepção da palavra. Não consigo juntar no mesmo compartimento mental os termos ‘atração’ e ‘esquelética’. Mas foi o considerado ideal pelos chefões da imagem da marca. Minha opinião fazia parte de uma minoria que não precisava ser levada em conta nessa equação comercial. Fora da curva, afinal.

Infelizmente acrescento pouco a essa discussão. Porque é uma postura extremamente particular da minha parte de ‘desculpar’ essas ‘imperfeições’ (segundo os ditames gerais da moda ou da cabeça feminina) ao considerar atraente uma mulher. Enxergo uma harmonia naquele corpo e rosto que não tenho intenção de verbalizar. Não quero racionalizar esse mistério da fase instintiva.

O único mistério com que eu me arrisco a mexer é do instante fotográfico. Essas mulheres que aparecem no tumblr, essas gostosas que se acham gordas, no instante do clique da câmera se acharam confortavelmente sexy. Esses instantes, talvez com sinapses por trás curiosamente parecidas com as minhas, já fazem bem para a humanidade.

A URL que você tanto está atrás: Gostosa que se acha gorda

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