Jornalismo, Música

Zona de conforto de Lobão é a polêmica. Mas dentro das regras dele

discoacsticodoloborecordenegativodevendas_big_812cd2fEm tempos de mais uma controvérsia envolvendo Lobão – um novo livro em que vocifera contra Dilma, Racionais e Roberto Carlos, entre outros – lembrei do meu bate-boca com ele durante uma entrevista ao G1. Berros (meus) eram ouvidos pela Redação. Xingamentos eram soltos do outro lado da linha. Lobão obviamente gosta de uma polêmica. Mas tem que estar sob suas rédeas. Sem isso, a zona de conforto dentro da polêmica desaparece.

21/05/07 – 11h07 – Atualizado em 03/06/07 – 15h34

Lobão: você não vai saber de mais nada

Cantor briga com repórter depois de perguntas sobre volta à indústria.
Ele estréia show do “Acústico MTV” em São Paulo na próxima sexta-feira (25).

Shin Oliva Suzuki

Do G1, em São Paulo

Lobão gravou um “Acústico MTV”, voltou para uma grande gravadora e contrariou o seu discurso de independência da indústria na última década. Isso muita gente já sabe. A novidade é que ele não quer mais falar sobre isso, não quer mais ninguém “enchendo o saco” (palavras dele) sobre o tema e ponto final. Não gostou? Então complete com um impropério da sua preferência.

Depois da primeira questão, “o que você acha de falarem nas reportagens mais de seu retorno a uma grande gravadora do que do ‘Acústico’ em si?”, feita para tentar avançar no que vem sendo debatido nos últimos meses, Lobão se irrita. “Não, não estou sentindo isso não”, diz, em tom seco, encrespado.E os 24 minutos seguintes da conversa, ocorrida na semana passada, ficam dominados pelo clima tenso.

Mas qual o problema na pergunta, Lobão? “Desde que eu saí da Blitz falam da minha conduta. É um pouco de falta de imaginação pegar por aí uma vez que o disco está sendo absolutamente aclamado pela crítica e pelo público.”

“Quem especula sobre isso é comedor de cocô… É de uma burrice, é de uma obtusidade que não tem tamanho.” A exaltação sobe.

Então não é legítimo perguntar isso, uma vez que, primeiro, você é o objeto dos textos e, segundo, todos os títulos de reportagem levantam a contradição no seu discurso anterior de ataque à política praticada pelas grandes gravadoras e ao formato “Acústico” – algo que está sendo feito agora, via MTV e Sony/BMG?

“Eu tô te dizendo que não me interessa esse tipo de coisa porque o disco está indo muito bem, porque mesmo quem está falando de mim como pessoa está falando bem do disco. Então por que eu vou falar [sobre isso] se o meu intento é vender o disco, vender o meu trabalho?”

“Você vai ficar nessa?”, ele ataca.

A reportagem tenta uma nova abordagem para mais tarde voltar ao assunto – perguntar, como também estava previsto, sobre a concepção do disco e o show da próxima sexta-feira (25) em São Paulo, no Via Funchal.

“A gente parou, escolheu 50 músicas entre 300. Começamos a ensaiar com três violões. E o fato de a gente ter uma captação de som que nunca houve nos outros ‘Acústicos’ é que possibilitou esse. Antes não havia essa tecnologia de geração [de som] de violão. O critério do repertório foi para poder tirar o melhor som possível do violão das músicas que melhor soavam bem nesse violão”, afirma o cantor, ofegante.

Nova tentativa. Mas agora é justamente para saber o porquê de respostas tão virulentas, sendo que o cantor passou os anos 90 e parte dos 2000 com um discurso tão afiado e de repente não permite esse questionamento.

0O tom volta a subir: “Tudo que eu tenho falado é irrelevado. Eu não aguento mais ficar falando. Eu não falo mais, cara. Eu não tenho mais o que dizer na medida em que o disco está feito e eu estou na turnê”, diz.

“A gente já está falando sobre resultados. Se está todo mundo falando [sobre o fato de ele retornar a uma major] eu quero que se f…, porque se eu fosse apegado ao fato de as pessoas falarem bem ou mal eu não teria liberdade de escolher os meus caminhos.”

Mudamos de assunto: Lobão saiu da Universal para a independência porque não aderiu a uma campanha contra a pirataria. Então o que ele acha sobre o fato de seu “Acústico” já estar na banquinha do camelô?

“Normal, eu sempre achei normal isso.” Poderia explicar um pouco melhor? “Não.”

E qual a sua opinião sobre a gestão do ministro da Cultura, Gilberto Gil?

“Eu não estou preocupado em falar sobre gestão política. Estou lançando o meu disco.”

A entrevista fica perto de acabar. Ele ameaça bater o telefone na cara da reportagem. Seguem-se quatro minutos de bate-boca sobre o direito de perguntar a respeito desses assuntos, a respeito de ter de volta respostas lacônicas e irritadas. Mas tentamos prosseguir mais uma vez.

Então quais foram os violões que você utilizou no álbum? “Ah, essa é uma bela pergunta”, afirma o cantor, que se estende na descrição dos equipamentos e na influência do gênero antifolk e artistas como Wilco, Harry Nilsson, Ben Kweller, entre outros.

Certo. Mas ainda há a curiosidade de descobrir a razão do comportamento na entrevista, sendo que outros jornalistas também quiseram passar pelos mesmos temas e não receberam o mesmo tratamento – ou não descreveram o mesmo tratamento.

Lobão, então, resume o que deseja para sua nova fase, fora do mercado independente e distante de polêmicas que marcaram sua carreira: “Esse disco é para revelar ao grande público tudo o que eu vinha fazendo nesses últimos oito, dez anos, e que as pessoas ficaram falando, que eu virei um falastrão, me chamaram de quixotesco no caso da numeração dos CDs e ela rolou.”

“Aí teve o projeto de vender disco na banca de jornal, e as pessoas falando ‘mas esse cara não faz música’. E as minhas músicas sem tocar no rádio… então esse disco é algo: ‘agora vocês vão ouvir’. Eu tô de saco cheio justamente de ficar falando, conceituando coisas para que você fale essas coisas. O disco não merece esse tipo de coisa. Já venceu esse tipo de coisa. Eu entrei nessa guerra pronto para encarar esse corredor polonês.”

Mas esses questionamentos não vão te acompanhar por toda a sua carreira?

“Isso não vai se sustentar, isso é uma burrice”, afirma.

“O disco vai vencer por sua própria qualidade. As pessoas esquecem que quem gosta de música quer um disco bom pra c… e eu fiz um disco bom pra c…”

Novo debate sobre poder ou não poder perguntar e “neste exato momento, do jeito que você perguntou, eu lhe declaro que não é pertinente falar sobre o assunto com você”.

Mas foi mal-educada a primeira pergunta? Por que você acha isso? “Porque foi a primeira. Você poderia ter aberto a uma conversação muito mais delicada e mais gentil, com toda certeza.”

Então o roteiro seria iniciar com algo mais ameno para depois partir com os aguardados questionamentos de sua volta à indústria?

“Claro. Você levou um capote do seu entrevistado”, diz. “Você não vai saber de mais nada.”

Ou será que acabamos sabendo mais do que esperávamos?

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Um comentário sobre “Zona de conforto de Lobão é a polêmica. Mas dentro das regras dele

  1. A entrevista foi boa pra kct, parabéns! Talvez vc só tenha ido muito direto ao ponto, já foi na canela logo na primeira pergunta, enfim, sei lá se é a melhor forma de abordagem, afinal, até ele tem regras, huhauhauha…

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