Escritos

O único orgulho genuíno do brasileiro

Complexo de vira-lata parece algo impossível de ser largado pelo brasileiro. Hoje a opinião do tiozinho ranzinza do bar ou do taxista não está só nas ruas, está nos comentários das notícias online, está no Facebook, está inescapavelmente ao seu alcance. Mesmo uma vitória de um compatriota vem tragada por críticas impiedosas, relativizações impensadas e puro, puro desprezo. De Tom Jobim a Fernando Henrique Cardoso, muitas vítimas desse desejo de fracasso incutido no sentimento nacional já expuseram seu amargor. Nós conseguimos ampliar o conceito de schadenfreude e hoje damos nó na cabeça dos caras.

Pense no jogador de futebol que cospe variações da zagalliana vocês-vão-ter-que-me-engolir depois de um título valorizado pelos de fora enquanto seus críticos aqui dentro procuram rapidamente furos no mérito pela conquista. Futebol, orgulho nacional? “Os outros já nos deixaram para trás faz tempo.” “Tiveram que apelar para conseguir vencer.”

A bossa nova de dedicados japoneses como fãs é criação de um bando de chatos que se acham gênios. A música brasileira de hoje que vai a Montreux é dominada pelo baixo nível. “Aff, é isso que eles querem escutar?” Disco de rock bom? “Não ouvi, e por que vou ouvir coisa de um grupo de colonizados? Por que esse pessoal não valoriza os nossos sons?”. E esses pretensiosos que fizeram um álbum “difícil” e caíram no gosto do crítico britânico? “Deram sorte com esse lixo que só meia dúzia de gato pingado consegue encarar.”

Não há glória em alguém que fale português e entrou em Harvard. Cabeça anabolizada pelo dinheiro de papai, tá na cara. Filho da vendedora de coxinha chegou também chegou na Ivy League? “Enquanto a mãe se matava de trabalhar ele tinha todo o tempo do mundo para estudar. Assim até eu.”

Em contato diário com esse tipo de impressão, vi que a única característica realmente a brilhar frente a outras nacionalidades é a de que nós tomamos banho. Sim, pense bem. Alguém questiona essa qualidade? De forma alguma. Somos os mestres supremos no imaginário campeonato internacional da higiene pessoal. Atingimos um grau de civilização que outros povos ainda não puderam compreender, é assim que enchemos a boca ao relatar a nossa experiência em outras culturas. Turcos com a barba a fazer cheiram mal ao dividir o quarto com nossos patrícios. Franceses exalam mais do que séculos de contribuição à cultura ocidental. “De que adianta todo aquele conhecimento?”

Enquanto americanos “stink” em várias acepções, o brasileiro colabora com o bem estar coletivo ao se apresentar asseado, orgulhoso de seus três banhos naquele dia. Não há reparo a fazer nessa jornada vitoriosa.  A não ser que… “por que esse orgulho todo? Gastamos água, enquanto a maior parte do mundo não tem nem saneamento básico. Estão comprando perfume sem nem ter onde cair morto. Tanta preocupação com a própria imagem em vez de passar esse tempo com estudo e trabalho, enquanto os chineses não ligam pra isso e estão perto de dominar o mundo”. É fácil imaginar isso. Não há limites.

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