Música

Uma viagem de 22 anos na vida

4302585584_3123e0d295_zComo em certas coisas da vida, as situações inesperadas às vezes se revelam perfeitas. Depois de anos de promessas sobre um novo disco do My Bloody Valentine, as sugestões de que dessa vez a coisa era para valer começaram a parecer cada vez mais consistentes. Um post ao fim de dezembro no Facebook, anunciando a masterização final do álbum, deu firmeza a nossa fé de que havíamos chegado ao momento que Téo José define como ‘não perde mais’ em suas locuções na Indy. Pouco mais de um mês corrido e apareceu um novo post, simples, simples demais que era bom demais para ser verdade. ‘M B V’, o novo álbum, estava à venda diretamente no site deles, com download imediato.

Parecia quase irreal. Foram 22 anos de espera e tanta coisa mudou no mundo e nas nossas vidas desde ‘Loveless’. Naquela época,  internet era coisa de laboratório. O CD era a mídia dominante. A MTV e as revistas eram as principais fontes de informação musical. Eu era adolescente, ainda estava para começar o ensino médio, e também virgem de quase tudo na vida.

Na verdade, só fui conhecer My Bloody Valentine em 1992, com o clipe de ‘Only Shallow’ na MTV. É difícil explicar o impacto que aquela música me causou. Não houve nenhum grupo que pudesse me servir de preparação para o som deles. Não havia lido uma matéria de revista ou jornal que pudesse me deixar intrigado e me fazer ir atrás da banda. Mas se algo se aproximou de uma experiência de revelação na minha vida foi ter ouvido ‘Only Shallow’. Como se após ter passado pelos 4:18 da faixa eu tivesse a consciência instantânea de que havia conhecido uma expressão inovadora. Como eu poderia descrevê-la? Hoje eu penso que era uma intercalação bizarra dos sons de uma passagem de furacão com cânticos angelicais, em que você se sente jogado de um lado para o outro, e ao mesmo tempo dentro de um êxtase religioso.

As outras músicas da banda tiveram uma digestão muito mais difícil. No entanto, eu consegui assimilá-las. Em 22 anos transcorridos eu esqueci, descurti e mais tarde redescobri e voltei a me interessar pela música do MBV, mas tendo sempre em mim a memória do impacto inicial.

O site do My Bloody Valentine, na virada do dia 2 para 3 de fevereiro, não suportou a típica explosão de interesse nos dias de hoje por uma novidade de última hora. Dormi e acordei no fim da madrugada. O site tinha se normalizado e os arquivos das músicas já se proliferavam. Eu comecei a ouvir ‘M B V’ entre 5h e 6h da manhã do dia 3. Foi a atmosfera perfeita para se reencontrar com o grupo. O disco não começa com a devastação que ‘Only Shallow’ trazia ao ouvinte 20 anos atrás. Mas o som criado por Kevin Shields a partir de sua obsessão e grande habilidade dentro do estúdio, que era a assinatura de ‘Loveless’, permanece fresco aos ouvidos (talvez por se mostrar tão difícil de replicá-lo com exatidão por outras bandas).

Em outro paralelo, era como se finalmente o desejo de reencontrar uma pessoa, pela razão que fosse, se tornasse real e esta pessoa não tivesse envelhecido, não houvesse o impacto do tempo sobre ela. E o principal em circunstâncias como essa: como se a alegria da reunião fosse mútua.

Cada nova visita a esse novo trabalho tem trazido prazer e instigação. Há novos elementos na história e que são parte do mistério de uma obra fora da curva. Neste momento, decidi esperar pelo vinil encomendado e tentar uma nova experiência de redescoberta do My Bloody Valentine.

É um final feliz. Normalmente os reencontros na vida têm uma chance maior de decepção. A decadência com a passagem de tantos anos, o fim daquela personalidade tão atraente no passado, o descompasso entre a sua fase atual e a da pessoa. Desta vez, fomos colocados juntos novamente e, contra as probabilidades, tudo parece fazer sentido.

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2 comentários sobre “Uma viagem de 22 anos na vida

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