Uncategorized

O certo e o errado em Breaking Bad

Estou atrasado (agora não mais) em ‘Breaking Bad’. Mal me aproximo de acabar a terceira temporada. Assim, evito ler qualquer coisa que possa aparecer com spoilers. Desviei do artigo de Enrique Vila-Matas no ‘El País’ sobre a série (apenas li que ele fez uma maratona de 3 temporadas em algo como dois dias e, tratando-se do obsessivo que Vila-Matas é, pouco surpreende) e também da entrevista de Bryan Cranston, o Walter White protagonista, para o ‘Guardian’ (tive que resistir à tentação de saber um pouco mais sobre um ator que virou astro depois de coroa, o que sempre dá uma jornada de vida interessante). A verdade é que nunca li nem debati absolutamente nada sobre ‘Breaking Bad’.

Mas isso me deixa numa situação interessante. Nada de colocar em perspectiva uma concepção dos criadores ou suas intenções em cada personagem ou diálogo. E dessa forma digo que ‘Breaking Bad’ às vezes me traz um mal estar.

Séries (e novelas) atualmente oferecem uma riqueza muito maior na personalidade de seus heróis. Áreas muito mais cinzentas, ninguém é completamente ‘good guy’ ou ‘bad guy’. ‘Breaking Bad’ leva isso a um extremo.

A figura do pai de família que se mata de trabalhar em um emprego meia boca junto a bicos humilhantes e se vê diante de um câncer potencialmente fulminante – com uma jovem esposa grávida e o filho de 15 anos deficiente na lista de responsabilidades – traz compaixão. E empatia, já que de imediato vem à cabeça se um dia podemos acabar ‘breaking bad’, nesse ponto em que tudo vira de cabeça pra baixo.

Quando Walter White explora suas grandes habilidades como químico, desprezadas até então, e produz a melhor anfetamina de Albuquerque, Novo México, nós torcemos para que ele consiga se dar bem. Bem, toleramos, é compreensível um passo fora da legalidade para se recolocar na rota da vida.

Mas, conforme a série avança, a personalidade pacata e assustada de Walter White que me aproximou dele a cada episódio vai se dissolvendo em uma imagem sombria. A cabeça raspada pelo tratamento do câncer dá uma incômoda aparência ‘badass’, como o próprio filho Walter Jr define, ao ‘herói’.

E o homem de negócio das drogas, como a maioria dos que precisam tomar decisões difíceis a cada hora, se guia por um pragmatismo implacável. E aí para mim reside uma das maiores belezas da série: o efeito devastador de cada movimento que faz uma pessoa em um permanente olho do furacão.

O roteiro é capaz de sutilezas que me parecem cuidadosamente costuradas com a trama principal (o que é incrível, dada a pressão de prazos para uma série de TV). Uma delas é a de que Walter White, mais do que se salvar do câncer e prover sua família, luta por reconhecimento pessoal e pelo respeito que nunca teve. Um caráter egoísta, digo em sentido sem tanto juízo de valor (digo, quem não quer reconhecimento pessoal e respeito?)

Nesse meu momento na história a toda hora aparecem questionamentos de certo-ou-errado. Quem se envolve com uma série, torce pelos seus personagens. Quem queremos ser? Assim, esperamos que o cunhado e agente antidrogas Hank seja morto pelos narcos mexicanos para que Walter White escape e faça seus negócios tranquilamente? Que a ex-mulher Skyler mantenha o silêncio enquanto as consequências já não estão mais só em uma das partes de sua vida dupla?

E aí chega a pergunta: somos capazes de tomar uma ‘via Walter White’ a depender das circunstâncias? Calma, é só ficção. Mas quando ela é poderosa te faz mais do que um espectador.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s