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Flip 2012: a literatura sagrada e a stand-up comedy

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A Flip chegou à 10ª edição neste ano e para mim ficou provado que funciona como evento. Paraty é muito gostosa e charmosa como cidade e, nas três vezes em que fui lá fazer a cobertura, sempre aparecia alguma ideia ‘carai-que-sacada-não-tinha-pensado-nisso-antes’ que me colocava no caminho autores que mereciam ser descobertos – e que provavelmente não seriam sem a Flip. As pessoas reclamam, mas vale sim ir a Paraty em ao menos uma edição.

Este ano foi considerado fraco em polêmicas (uma necessidade do nosso tempo), mas dois debates me chamaram atenção para a questão do “a literatura/ler nos dias de hoje” e se uma mesa da Flip precisa entreter/divertir o público.

Enrique Vila-Matas, autor de quem gosto muito, embora de leitura exigente, fez sua segunda participação dentro da programação (substituindo o horário que seria de Le Clèzio, bolo de última hora). Como no papel, o cara vendeu caro em cima do palco. Apesar de um excelente ritmo de leitura e da boa voz, a intrincada linha de pensamento de Vila-Matas e o name-dropping frenético durante quase 60 minutos, mais excitante para nerds literários, testaram a paciência do público. Muita gente desertou e foi se preparar para curtir a noite de Paraty (imaginei o gosto da cachacinha tentando a cabeça das pessoas durante o debate).

Mas respeito o que Vila-Matas disse em sua leitura. Uma preocupação legítima com o sagrado na literatura, com a vulgarização do “ser escritor” (existem mais autores que leitores hoje em dia, aquela história), com a falta de ritual e de preparação para descortinar as obras que nos trarão reflexões sobre a condição humana e a consequente evolução do pensamento. Sei que é difícil dizer essas frases empoladas sem um sorriso no canto da boca, mas é isso mesmo. Deixemos o cinismo de lado um pouco.

Só que ouvir Vila-Matas tirar uma razão do bolso atrás da outra durante quase 1 hora é demais para o nosso DDA incrustado no DNA dos dias de hoje.  Ele estava sozinho no palco, não havia diálogo. Sem estímulos visuais. Sem gracinhas. Na verdade, ficou um lamúrio de um homem que rompeu com seu tempo. (Pessoalmente, prefiro pensar que o meu tempo é hoje e no que ele me oferece de vantagem. Mas cada um cada um, certo?)

Então na manhã do dia seguinte, entraram Fabricio Carpinejar e Jackie Kay. A escritora escocesa conseguiu aliar discussão literária e um humor refinadíssimo. Não conheço a fundo a obra de Carpinejar e a intenção aqui é analisar uma mesa da Flip pelo seu valor de face. Mas o que ocorreu é que a coisa descambou para o stand-up comedy.

Histórias sobre o amiguinho filho da faxineira da escola, sobre ser feio e a relação com o mundo… tudo muito engraçado, divertido, mas tudo muito pouco vindo de Carpinejar sobre o fazer literário. Enfim. Não vim aqui para questionar a forma como os debates foram conduzidos na Flip, pelo contrário, acho que a maioria sempre funcionou bem. Nesta edição, o curador Miguel Conde ainda estimulou uma conversa prévia entre participantes e mediação que foi salutar.

O que tivemos foram os extremos de uma época em que a confusão parece instalada. De um lado, Vila-Matas, pessimista e mantenedor de uma visão e maneiras que parecem cada vez mais alienar as pessoas. É a dele, gosto dos questionamentos levantados, só que a literatura não será salva desse modo. Do outro, um autor adesista demais à época do espetáculo e da diversão.

Como disse Ian McEwan em resposta ao “a literatura está em perigo nos dias de hoje!” de Jonathan Franzen, precisamos questionar a natureza da narrativa atual. Porém, como ficou marcado para mim nos debates, há também a necessidade de uma figura pública forte que consiga levantar a bandeira da literatura. Infelizmente ou não, trancar-se no quarto curtindo a tuberculose não servirá mais.

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