Escritos, Música

Discos da vida

Miles Davis – Kind of Blue (1959)

Tenho três tios. Luiz é mais distante. Almiro foi um dos meus grandes companheiros de adolescência, fã de Jesus and Mary Chain e que me apresentou coisas como o ‘Astral Weeks’, e com quem eu trocava altas figurinhas sobre música.  Chico sempre foi uma pessoa muito bacana, amorosa, além de ser um grande fã de jazz e chegou a ter um programa de rádio em Aracaju. Tio me deu ‘Kind of Blue’ de presente, que foi meu primeiro contato sério com jazz. Roqueiro, eu não me conectei com ele de imediato. Mas Almiro, o tio n° 2, me falou ‘calma que você chega lá’. Eu ao menos sempre tive a curiosidade de saber por que tal álbum é tão importante. Insisti. Chegou uma hora em que rolou o clique e descobri que jazz não era música de velho que bebe uísque. Há discos que você gosta e não ouve mais. ‘Kind of Blue’ é o disco que nunca envelhece dentro da minha vida. Ganhei de um colega jornalista a edição tripla especial que a gravadora tinha mandado para ele lá na redação. Mas, no mesmo dia, a gente foi para o Lovestory e ele estacionou o carro na rua. Roubaram o CD e deixaram lá o do Pearl Jam. Até ladrão perto de bar de puta sabe o que realmente importa.

Teenage Fanclub – Bandwangonesque (1991)

Esse disco representa a primeira vez em que eu me apaixonei. E também a minha estreia em dizer ‘eu te amo’ para alguém. Tinha 15 anos. Já era fã do ‘Bandwagonesque’: era inacreditável como uma sequência podia soar incrivelmente fácil, pegajosa, mas com o fuzz do grunge presente, o que estabelecia uma conexão com tudo que estava rolando à época no rock. Aí apareceu Helena Yumi Hashizume. Uma japonesa lindíssima, ouvinte de Bon Jovi, Bryan Adams, Gin Blossoms e que por algum desvio de rota tinha virado fã devota de Teenage Fanclub (e estacionado por aí no que diz respeito a sons interessantes). Me recordo que ela fez para o Dia dos Namorados de 1994 uma fitinha com ‘Bandwagonesque’ mais o single de ‘What You Do to Me’ de bônus. Também me lembro de ouvir aquele riff sujo de ‘I Don’t Know’ – a única composição do Raymond McGinley no álbum – no calor da paixão. O negócio queimou em mim de uma maneira como nunca tinha sentido. Foram 9 meses de namoro. Depois, encontrei com ela nas duas vezes em que o TFC veio ao Brasil. Ela continuava lindíssima (galera indo ao Facebook em 3, 2, 1…). Mas o sentimento era de algo gostoso do passado e que estava bem simplesmente guardado lá.

Morphine – Cure for Pain (1993)

Essa banda era diferente. Para mim, era um choque não ter guitarra. Para mim, era um choque o saxofone ter um papel tão central em uma banda de rock e um baixo de duas cordas ser tocado com slide. Mas há uma importância muito maior em relação ao que esse disco representou para mim. Desde então, sons que trazem uma atmosfera noturna, esfumaçada, sexy moldaram meu gosto. E esse espírito, digamos, ‘noir’ se materializa de diferentes formas em outros artistas, mas que me atrai facilmente. A voz do Mark Sandman era envolvente, sensual, e as letras tinham histórias. Por exemplo, ‘In Spite of Me’ começa com um verso matador – ‘Last night I told a stranger all about you’ -, mas só deixava no ar o que havia acontecido entre ele e a mulher do diálogo da música. ‘Let’s Take a Trip Together’ cumpre o que o título diz: é uma das faixas mais viajantes que eu já escutei. Na época, eu não conhecia Tom Waits, Leonard Cohen e Nick Cave, mas foi o caminho aberto pelo Morphine que me levou a eles e a tantas outras coisas fodas do que hoje eu chamo de ‘o som da madrugada, o som das 2h23 da manhã’.

Ali Farka Touré – Savane (2006)

Falem mal do Pitchfork, mas conheci muita coisa boa fora do hype por lá. Além de Amadou & Mariam, foi com eles que descobri Ali Farka Touré. Os dois são do Mali, do coup d’etat de duas semanas atrás (tava arranjando uma oportunidade para falar ‘coup d’etat’). E quando assisti ‘Albergue Espanhol’ uma cena me fisgou especificamente: o protagonista e uma garota ouvindo uma faixa de Ali em duo com o Ry Cooder (‘Ai Du’) dentro de um quarto em Barcelona – uma cidade mágica para mim. Meus 5 meses na Espanha em 2005 não foram tão mágicos assim – era Sevilha e não Barcelona, deve ter sido esse o problema -, mas o filme e aquela cena me transportaram para os poucos momentos bons que eu tive na cidade e para minhas expectativas não-realizadas por lá. Costumam classificar Ali Farka Touré como o ‘John Lee Hooker africano’, mas ele sempre dizia que, ora, antes do blues já existia a música do Mali. Ele quebra qualquer cercadinho que a gente coloca para separar essa sonoridade como exotismo, ‘world music’, e ‘Savane’ é um disco de contemplação, de fundo sonoro para falar sobre a vida de um modo mais profundo. E ao mesmo tempo dono de uma sensualidade em cada dedilhado de guitarra que cria o que eu chamo de ‘excitação tranquila’. Uma vontade de viver a vida sem ansiedade.

Pixies – Doolittle (1989)

A primeira vez que Pixies me pegou sério foi quando a Brasil 2000 daqui de SP tocou ‘No 13 Baby’ e eu ouvi em um rádio velho da cozinha. Claro, já curtia ‘Here Comes Your Man’ das vezes que ouvia na 89 FM, mas dessa vez o negócio era sério. Aquele dedilhado de guitarra nos 30 segundos finais que o Joey Santiago faz (ou é o próprio Black Francis?) me colocou numa espécie de transe – em plena cozinha dos meus pais – e uma sensação de que algo significativo tinha acabado de acontecer. Tive isso também com Only Shallow do MBV e Roll the Bones do Rush. Tive experiências assim depois mas nada tão forte como isso. Virou uma obsessão por um tempo muitos e muitos anos depois vivenciar esse tipo de sensação até perceber que ela não voltaria – não na forma como se materializou naqueles meses. Por que ela tinha desaparecido? Não importa mais. Anyway, voltando: meu pai não tinha muita grana e eu demorei para comprar um aparelho de CD. O primeiro disco que ouvi nele foi ‘Doolittle’. Ouvi o disco arrepiado do começo ao fim logo na primeira vez.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s