Escritos, Livros

Só correndo se atravessa os pensamentos mais perigosos

Há uma ideia largamente difundida de que grandes artistas não só têm de conviver com as maiores aflições da alma e doses diárias de miséria humana, como seus hábitos são feitos de desordem, de preocupação zero com frugalidades tipo saúde do corpo e incluem abuso de substâncias das quais normalmente se pede moderação ou distância. Pegue os escritores tuberculosos, do tempo em que pulmões infectados pareciam ter relação com qualidade literária, ou um Hunter S. Thompson autopromotor de uma propalada dieta à base de uísque, cigarros, cocaína, maconha e LSD, e se tem uma noção razoável da mitificação em torno disso.

Talvez por raciocínio automático o oposto desse conjunto cria suspeitas sobre o valor de alguns artistas. Eu me lembro de um colega de Ilustrada repetindo uma vez a máxima ‘roqueiro de cara limpa não dá!’. Penso em todos os nomes clássicos do gênero e concluo ‘talvez, talvez’. Mas é uma lógica mecânica. E isso vale para todos os campos artísticos. Leio ‘Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida’, de Haruki Murakami, e ele relata que constantemente tem de prestar explicações pelo terrivelmente saudável e disciplinador hábito de correr. Pega mal para um escritor. Melancolia, tramas surreais, perversão sexual nos seus livros? E daí?, você pratica exercícios físicos.

Eu mesmo, quando advogo que não há melhor momento para escutar música se não correndo no parque, às vezes vejo uns narizes torcidos. Mas Murakami, em seu pequeno e belo livro sobre os paralelos entre o ofício de escrever e se preparar para as corridas, defende bem o porquê do trabalho duro de exercitar o corpo. Veja o que ele escreve: “Quando nós escrevemos para criar uma história, goste ou não um tipo de toxina que repousa em toda a humanidade levanta à superfície. Todos os escritores têm de se deparar com essa toxina e, conscientes do perigo envolvido, descobrem uma maneira de lidar com ela. (Por favor perdão pela analogia estranha: é como com o baiacu; a parte mais gostosa está perto do veneno – isso talvez seja algo parecido aonde eu estou querendo chegar). Não importa como você mexe com isso, não é uma atividade saudável.”

(…)

“Mas aqueles de nós que esperam ter longas carreiras como escritores profissionais devem desenvolver um sistema autoimune próprio para poder resistir à perigosa (em alguns casos letal) toxina que se encontra dentro. Faça isso, e nós poderemos dispor mais eficientemente de toxinas ainda mais fortes.”

É isso. Para viver perigosamente, para passear por caminhos sombrios aos quais muitas vezes somos atraídos – e por puro prazer, é o baiacu que o Murakami se refere – é preciso algum tipo de preparação. Para mim, é por aí.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s