Música

É possível aceitar o inaceitável?

Uma coisa insuportável de academia é aquele monte de televisão na frente das esteiras. É um desastre pra quem quer desligar de dez horas sem parar de informação na cabeça. Em um aparelho passa a Oprah, outro tá com futebol europeu, e aí tem Malhação (no caso, a série), telejornal e os clipes do Multishow. Esses últimos são os piores. A TV não tem som, mas as legendas com a tradução te perseguem. São umas letras tipo “tomo champanhe Cristal como quem bebe água”, “tenho uma pilha de dinheiro do tamanho do Yao Ming [um jogador chinês da NBA de 2,29 m de altura]” e mil variações para a frase “as gatas/minas/vadias não param de me olhar”. É um blá-blá-blá que nunca sai muito disso e ainda por cima o Multishow repete demais os clipes (por isso mesmo me lembrei do verso sobre o Yao Ming) no horário das 18h e pouco. Venho tentando descobrir um jeito de tirar o foco das TVs quando tô em cima da esteira.

Rap de sucesso hoje em dia é assim. Talvez Kanye West tente fazer algo diferente. E fico pensando como deve ser complicado fazer rimar sem repetir as palavras já que o universo é sempre o mesmo nas letras. Enfim. Mas questão de dois meses atrás um link de YouTube de um novo grupo de hip hop me chamou a atenção. O clipe, bizarro, não tinha nada que parecesse elegia à grana, símbolos de riqueza ou auto-exaltação. A música era bem diferente do pré-fabricado entuchado de auto-tune, a voz robozinho, e tinha, milagre, uma melodia marcante – parece que ela perdeu importância para a batida e os graves. O jeito de cuspir as palavras do rapper no vídeo – ou o que eles chamam de delivery, de flow – era claro, perfeitamente encaixado nas batidas.

Esse era o Odd Future Wolf Gang Kill Them All, que, para completar, tinha uma história sensacional por trás. Não era um grupo, mas um coletivo da Califórnia, com diferentes rappers lançando seus próprios discos. Uma garotada com menos de 18 anos – um dos mais talentosos deles, Earl Sweatshirt, tinha só 16 na época em que lançou seu álbum. É impressionante. O próprio Earl era tema de um boato engraçado em que a mãe tinha mandado o garoto a um colégio interno ao saber em que ele andava metido – história que começou a rolar com a mensagem ‘FREE EARL’ no tumburl do OFWGKTA.

As duas faixas que me pegaram primeiro foram as da estreia do cabeça do Odd Future, o Tyler, the Creator. Eram elas ‘French!’ e ‘VCR’. Essa última tem uma levada envolvente pra caramba e, sem exagero, é uma das atmosferas mais sexy dos últimos tempos ouvidas em uma música. O clipe tem um quê de sombrio, passado no que parece ser um local abandonado, com algumas cenas feitas com câmera caseira. E foi justo com ‘VCR’ que a porca começou a torcer o rabo e o entusiasmo virou pé atrás. As imagens explicam bem o que você destrincha com a letra do lado. É uma fantasia de estupro. Os versos não deixam dúvida, ‘the thoughts to rape you really turns me on’, ‘sort of like a psycho when I can’t stop with the rapings’.

Mas o conceito ao longo das faixas, assim por dizer, vai além da violência sexual. Tem mais fantasias – de assassinato, mutilações, além de homofobia distribuída a torto e a direito – e é evidente que há o objetivo de chocar o ouvinte. Sim, é a tática que já foi usada pelo punk no começo.

Tyler, em seu disco mais recente, ‘Goblin’, faz questão de deixar bem claro que é tudo ficção, tudo um personagem construído, tudo ‘arte’. Eu até acredito. Mas não dá para abraçar essas letras. Não dá para me identificar com essas letras. ‘Goblin’, por sinal, exacerba tudo que foi mostrado no primeiro disco como táticas de choque. A parte musical também não ficou tão legal nesse novo.

Há um monte de gente que obviamente não tem fantasias de sair estuprando garotinhas por aí mas curte Odd Future à beça. Eles defendem o ‘shock value’ nas músicas como uma espécie de viagem pelo lado mais obscuro da cabeça de alguém. (Por sinal, os dois discos do Tyler são ditados como uma espécie de conversa com um terapeuta.)

Só que música para mim é envolvimento. Quanto mais uma me empolga, mais eu me coloco dentro do imaginário que a letra trás. Quanto mais a letra me arrebata, mais importante a música fica para mim. O que aconteceu com o Tyler e o Odd Future é que eu continuo escutando os caras, mas a letra, por mais ‘ficção’ que seja, limita o meu envolvimento. Rap tem algo de pregação, de convencimento do ouvinte e eu acho que os caras nadam em águas perigosas.

Tyler é uma figura interessante (como se nota nessa entrevista), mas é hora de crescer, rapaz, a tática do choque tem vida limitada. Ainda mais no século 21.

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