Escritos, Música

Vida – a fita

Li este pequeno grande livro chamado ‘Love Is a Mix Tape’, escrito por Rob Sheffield, jornalista da ‘Rolling Stone’. Engraçado, quando lia os textos dele, eu imaginava alguém bem diferente, arrogante e intimidador. É o exato oposto o que você encontra lá. Bom eu estou atropelando as coisas um pouco. Vamos por partes: primeiro, é bom alertar aos que possam se interessar pela premissa do livro de que se trata de um texto de memórias de alguém que não teve (tem) uma vida extraordinária. E como algo assim pode ser bom, marcante?

Porque é sincero, porque tem a ver com a sua vida. Com a minha vida pelo menos, porque fazer fitinhas com as faixas de que eu mais gostava sempre foi uma das principais atividades como um fã de música. Me lembro de cavucar alguns cassetes velhos dos meus pais e usar pra gravar o que eu mais gostava no rádio, com locutor falando em cima e tudo. (Sabe-se lá o que o foi feito dessas fitas. Eu guardo um monte na casa dos meus pais, mas essas exatamente provavelmente não resistiram.)

Passei por CDs e cheguei ao iPod, mas o hábito de fazer sequências de música sempre me acompanha. Pra mim sempre foi um grande momento preparar uma fitinha ou CD especialmente para outra pessoa. (Me vem à cabeça agora: o que foi feito do cassete que eu fiz para a Carol da faculdade, com My Bloody Valentine e umas outras paradas shoegaze, depois que ela não quis nada comigo e eu fui um grosso ressentido? E ela ainda me fez uma fitinhas com uns partidos altos muito legais. Espero que ela ainda a conserve. Eu tenho a fita de samba dela até hoje.)

‘Love Is a Mixtape’ é sobre essas coisas todas. E olha que eu estava falando só sobre a minha vida no parágrafo anterior. Mas Rob Sheffield traz uma história muito mais interesante, de paixão, de amor e  de perda, provavelmente nesta ordem e, claro, embalados, pelas fitinhas.

Ele, jovem, tímido e nerd, encontra a mulher da vida e não só consegue namorá-la como chega até o casamento (milagre para um nerd!). Mais do que isso. Como o próprio Rob afirma no livro, sua esposa, Reneé, era um herói, uma heroína para ele. Isso é forte. Ainda mais quando ele faz a contraposição a isso (não me lembro em que contexto) quando ele cita uma frase que diz que um casamento ruim é como viver sozinho sem ter privacidade. Uau.

Mas ele define muito bem o que é ter uma alma gêmea e como é perdê-la. Reneé tem uma embolia coronária, morre do modo mais inesperado possível e ele tem que lidar com isso. Em uma das passagens mais de cortar o coração ele fala do hábito de ficar até tarde em um supermercado e invejar mesmo os casais mais desconjuntados. Ele diz mais ou menos assim: “Ei você, casal, seja lá como você é, saiba que há sempre um viúvo à espreita, invejando a união de vocês”. E também fala algo que eu nunca pensei. Como é preencher seu estado civil em alguma ficha sendo um viúvo de apenas 31 anos. É ter que ser lembrado constantemente de sua pequena tragédia particular. Putz.

As mixtapes deles são ótimas. São sinceras, como seu texto, e tem um monte de músicas consideradas meio merdas por qualquer connoisseur musical blasé, metido e chato de galocha. Fodam-se eles. A vida é muito mais do que bom gosto musical. Eu me sinto muito felizardo por ter abandonado qualquer tentativa de ter “um bom gosto musical”. Isso não é gostar de música. Não é vida. Valeu, Rob Sheffield, por me lembrar mais uma vez disso.

Fiz, claro, uma mix tape, uma playlist de iPod mais exatamente, juntando coisas que ele cita no livro e coisas minhas. Ficou bacana demais.

Yo La Tengo – Green Arrow

Mogwai – Stop Coming to My House

Anika – Yang Yang

Flying Lotus – Tea Leaf Dancers

Inner City – Good Life

Indeep – Last Night a DJ Saved My Life

George McRae – I Get Lifted

Quincy Jones – Soul Bossa Nova

Ray Barretto – The Soul Drummers

Clarence Reid – Nobody But You Babe

Tone-Loc – Wild Thing

Chubby Checker – Let’s Twist Again

Bukka White – Fixin’ to Die Blues

Nick Lowe – Cracking Up

Tindersticks and Isabella Rossellini – Marriage Made in Heaven

Juliana Hatfield – Ugly

The B-52’s – 52 Girls

Yo La Tengo – Point and Shoot

Sleater-Kinney – Little Babies

Sleater-Kinney – One More Hour

Sleater-Kinney

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