Música

Amy Winehouse x Lemonheads

Paga pau não, negão, tô é fotografando ela. Amy no Coachella 2007

De todos os shows que eu já vi, um dos meus maiores arrependimentos foi ter abandonado no meio um do Lemonheads em 2004, aqui em São Paulo. Evan Dando atravessava uma fase feia da vida dorgas e foi um daqueles vexames inesquecíveis: voz completamente rouca (rouca é pouca, soava esgarçada, destroçada), um descompasso total com a banda de apoio e frases desconexas no microfone o tempo inteiro. Muita gente, não só eu, se revoltou, e Dando tinha alguma ideia do papelão que protagonizava. Não foi por provocação que ele chegou a gritar para o público: ‘Pode atirar coisas em mim!’.

Fiquei sabendo depois que o show seguiu assim, constrangedor e melancólico. Ao pensar hoje que eu teria ficado para ver até o fim aquele espetáculo patético, existe, claro, a ideia de um prazer sádico. Mas há também a consciência de que rock ‘n roll é uma arena em que se realiza a ideia de autodestruição e consequentemente de ausência de qualquer parâmetro de decência, segurança e compromisso com o outro. Aprove você ou não, 77% dos mitos do rock, diria uma fictícia pesquisa de uma prestigiada universidade britânica, foram construídos dessa forma.

Amy Winehouse cumpre bem essa cartilha. Paparazzi e público em geral ficaram meio decepcionados com só um peitinho pagado na varanda do hotel ou aquele semitropicão no palco em Recife (nada comparado ao cambau que Paul McCartney tomou em São Paulo) e mais nada.  Tivesse ela bancado o Evan Dando e cumprido essas expectativas até teria sido interessante – mas pelos motivos errados. Amy já fez esse roteiro umas 500 vezes, muito bem registrado por todos, e a coisa hoje tende para uma palhaçada sem muita graça, algo cômico e amargo ao mesmo tempo.

O que se viu em frente a 30 mil pessoas, no entanto, era uma cantora sem tesão. ‘Ela é louca’, falava alguém ao lado no meio do público, numa tentativa de fazer uma descrição genérica de Amy. Errado. Antes fosse isso; o que tínhamos em cima do palco era uma pop star chapada, entorpecida, com uma expressão na cara tipo ‘meu deus, que que eu tô fazendo aqui?’.

É verdade quando dizem que ela nunca foi uma showwoman carismática, mas, veja bem, ela é uma cantora de SOUL. E não é preciso fazer das tripas coração como James Brown para ser alguém do ramo, mas alma a gente enxerga, pelo menos em termos musicais, se a coisa está lá. Assisti a um show dela em 2007 (momento, aliás, que ilustra este post), em uma tenda pequena do Coachella, quando começava a rolar o burburinho em cima dela nos Estados Unidos. Dava para perceber que tinha algo de diferente na entrega, um talento distinto. E havia vontade lá.

“Você já teve a impressão de estar sendo enganado?” vem à cabeça, recordando outro momento mítico do rock, o dos Sex Pistols, quando John Lydon se deu conta – em público – de que a pantomima do grupo já tinha dado. Amy também poderia ter o mesmo rasgo de sinceridade – não necessariamente em público – e parar para pensar qual é a dela. Para mim, não tem muito segredo, basta ela se lembrar que é uma cantora de soul. Só isso.

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