Jornalismo

‘Gomorra’, de Roberto Saviano

gomorraPoucos textos são tão apaixonados em suas certezas quanto o de Roberto Saviano em ‘Gomorra’. Poucos textos são tão precisos em suas descrições, em que se materializam odores, feições e humores, sem que o leitor se sinta enfadado. Poucos textos são tão desesperados diante da realidade que cerca seu autor sem que provoque esmorecimento em quem recebe a mensagem, mas sim fervor. Saviano teve uma revelação sobre a vida. E sobre a morte. E nada o fará parar de transmiti-la.

‘Gomorra’ já vendeu 2 milhões de exemplares no mundo inteiro. Seu autor é um jovem jornalista italiano (29 anos), que descreve como opera a Camorra, a máfia atuante em Nápoles e no restante da região da Campânia. Um filme baseado na obra de Saviano venceu o prêmio da crítica no Festival de Cannes em 2008. Por causa do livro, Saviano é um perseguido. Vive sob ameaça de morte. Precisa de proteção. Respira a paranoia que, ironicamente, descreveu na gente que habita a máfia.

O impacto de ‘Gomorra’ não está apenas em seu poder revelatório, afinal muita gente, de Scorsese a Tony Soprano, conseguiu representar as organizações de forma tocante e chocante. Mas o relato amarra crônica social, impressões pessoais, reflexões filosóficas e análises sobre capitalismo e submundo com uma força que o coloca como um dos textos definidores do atual jornalismo de fôlego. Para falar a verdade, chamar ‘Gomorra’ simplesmente de obra jornalística é ser reducionista. E, de uma certa forma, injusto ao colocá-lo na mesma prateleira de tanta coisa barata sob esse rótulo.

Segue um trecho de ‘Gomorra’, com tradução de Elaine Niccolai.

“Ernst Jünger diria que a grandeza está sujeita à tempestade. O mesmo diriam os boss, os empresários da Camorra. Estar no centro de cada ação, o centro do poder. Usar tudo como meio e a si mesmo como fim. Quem diz que isso é amoral, que não pode haver vida sem ética, que a economia possui limites e regras a serem seguidas, é simplesmente quem não conseguiu comandar, quem foi excluído do mercado. A ética é o limite do perdedor, a proteção do destronado, a justificativa moral para aqueles que não conseguiram jogar tudo e conquistar tudo. A lei tem os seus códigos estabelecidos, mas não a justiça, que é outra coisa bem diferente. A justiça é um princípio bem abstrato que todos têm, suscetível conforme se interpreta, de absolver ou de condenar cada ser humano: culpados os ministros, culpados os papas, culpados os santos e os ateus, culpados os revolucionários e os reacionários. Culpados por terem traído, matado, errado. Culpados por terem envelhecido e morrido. Culpados por terem sido ultrapassados e vencidos. Culpados perante o tribunal universal da moral histórica e absolvidos pelo da necessidade. Justiça e injustiça têm um só significado, se consideradas concretamente. Seja pela vitória ou pela derrota, pelo ato cometido ou sofrido. Se alguém nos ofende, nos trata mal, está cometendo uma injustiça; se, ao contrário, nos reserva um tratamento de favor, nos faz justiça. Observando os poderes do clã, é preciso ater-se neste ponto de vista. Nestas malhas de juízo. Bastam. Devem bastar. É esta a única forma real de avaliação da justiça. O resto é so religião e confessionário. O imperativo econômico é modelado sobre esta lógica. Não são os negócios que os camorristas perseguem. São os negócios que perseguem os camorristas. A lógica do empreendimento criminoso, a mentalidade do boss coincide com o mais extremo neoliberalismo. As regras ditadas, as regras impostas, são as do mercado, do lucro, da vitória sobre todo concorrente. O resto é o zero, não vale nada. O resto não existe. Poder decidir sobre a vida e a morte de todos, poder promover um produto, monopolizar uma fatia de mercado, investir em setores de vanguarda, é um poder que se paga com a prisão ou com a vida. Ter poder por dez anos, por um ano, por uma hora. Não importa por quanto tempo: viver, comandar realmente, isto sim é que conta.”

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