Música

Meu gosto pelo Rush

Chega um colega de trabalho, o que ocupou a minha antiga vaga de repórter de música, e diz: ‘Tó. Teu irmão disse que você gosta de Rush’. Era o DVD triplo ao vivo da mais recente turnê deles, a de ‘Snakes & Arrows’. Achei demais, claro. Mas obviamente o oferecimento estava envolto no imenso desprezo que o clube dos descolados do jornalismo cultural (que alguns me veem justamente como membro) tem pelos três caras – Gonzo, nada pessoal, ok? Exemplo específico para situação genérica. Falo isso porque desde que o riff de ‘Roll the Bones’ me pegou, lá por 1991, 1992, eu nunca deixei de gostar de Rush – e isso me custou no mínimo algumas risadinhas irônicas. Ué, eles não são chatos? Técnicos? Progress… shhhiu… isso, aquilo que virou palavrão no rock pós-77. Em algum momento da história do rock eles simbolizaram o que havia de mais anticool. Porque, acima de tudo, que que eram aqueles cortes de cabelos? Até para os padrões da década de 80… jesuis.

rush-portrait1Como disse, o fato de eu gostar de Rush, sendo um jornalista de cultura pop, já me rendeu descrédito. Quando eles vieram ao Brasil pela primeira vez em 2002, fiz uma entrevista com o Geddy Lee e o texto de apresentação do show para a Folha de S.Paulo. Uma das editoras da Ilustrada disse que a gente tinha que fazer algo na linha ‘não dá pra levar a sério caras como esses’. Eu disse que não concordava. Ela chegou a chamar Pedro Alexandre Sanches, conceituado repórter musical, para dar sua opinião. Veredicto dele: polegar para baixo, ‘dinossauro detected’. “Viu?’, disse a moça. No final, a matéria saiu em um tom neutro (grazadeus), mas depois da publicação o editor-chefão me chamou para uma conversa e deu um puxão de orelha: ‘Nós não gostamos de Rush, viu? Quando for para fazer uma matéria sobre Rush, é para falar mal’. Certo, se você está na Veja, não há o que elogiar no governo, e se você está na Ilustrada… Ideologia é isso.

Para mim, o sensacional no Rush é justamente eles fazerem o exato oposto do que está na cartilha do ‘cool’ do pop. Não por uma postura ‘punk’, de confrontação consciente, mas por eles serem assim naturalmente. Bregas no estilo. Virtuoses. Pretensiosos. O negócio é que tudo isso é conceito, dissecação de crítico. Porque, na real, quem gosta de Rush se pega fazendo air guitar com ‘Limelight’, tá tocando bateria na virada da música do MacGyver, tá querendo entender como que ‘YYZ’, um som instrumental, vira música com vibe de torcida de futebol (assiste aí embaixo, logo depois de acabar de ler, como ficou essa música ao vivo no Rio). O fato é que hoje em dia você escuta Rush em Mars Volta, há com certeza algum DJ sampleando ‘Tom Sawyer’ em algum lugar do mundo, e, mais importante, o espírito dos tempos é o de ‘que se foda como o crítico quarentão divide o que é bacana ou não’. Como Alan McGee (descobridor do Oasis, o cara que bancou o ‘Loveless’ do My Bloody Valentine) observou no ‘Guardian’ sobre o revival do Phil Collins, as barreiras estão sendo derrubadas pela nova geração: ou você gosta ou você não gosta. Mas não venha me ditar as regras do que eu tenho que ouvir ou como me comportar em relação à música. Esse papo de ‘cool’ ou ‘not cool’ é coisa de gente ultrapassada.

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