Livros

Os detetives selvagens e a certeza das coisas

Quando eu perguntei pela primeira vez em uma livraria sobre o que tinha lá de Roberto Bolaño, o atendente pensou logo em Chaves, em Roberto BolañoS, claro – que é, convenhamos, a verdadeira ligação de toda a cultura recente da América Latina, não é mesmo? Só que era outro. O Bolaño, sem S, é chileno, não é mexicano. Ou melhor, é, sim, meio mexicano: como em sua obra, a biografia tem, de saída, elementos surpreendentes, que serpenteiam caminhos pouco convencionais. Bolaño nasceu no Chile, passou a adolescência e a iniciação literária no México e ainda rodou por uma cacetada de lugares.

Talvez seja melhor mesmo começar a falar de Roberto Bolaño pela sua vida, não pelo texto. Morreu cedo, aos 50 anos, em 2003, quando começava a ser apontado como um dos grandes nomes da literatura em espanhol, mas ainda distante do hype de hoje em dia (melhores do ano no “NYT” e em outros em 2007, porque só agora ele teve os livros editados em inglês). Depois de decidir voltar ao Chile, poucos dias depois do 11 de setembro de 1973, foi preso pelo regime de Pinochet e conseguiu se safar. Foi para El Salvador e, de lá, para a Espanha, onde trabalhou de garçom, vigilante de camping, trabalhador de barcos em um porto, lavador de prato e outras coisas mais. Fazia de tudo, mas sempre lia como um maluco e de tudo quanto era gênero.

“Los Detectives Salvajes”, que eu comprei na viagem do Chile agora há pouco, é o título mais conhecido dele. Antes tinha lido só “A Pista de Gelo”, em português mesmo, que tem edição brasileira como “Os Detetives Selvagens”. No primeiro, se percebe uma coisa genial no estilo do Bolaño, de contar uma história como se fosse uma narrativa policial, mas indo muito, muito além, do que o mistério de uma trama do gênero oferece.

“Los Detectives Salvajes” é um livro que eleva à décima potência essa idéia de narração que temos em “Pista de Gelo”. É ambicioso, mas não nega fogo. É divido em duas partes, sendo que uma delas também está dividida, uma que começa o livro, outra que termina. A parte do meio tem quase 50 narradores, cada um com seu sotaque reproduzido – o elenco tem mexicanos, chilenos, um argentino, um espanhol galego, outro madrileno, uma americana que fala com espanhol do México, todos falando em primeira pessoa e a seu próprio modo, o que vai além do sotaque.

Curiosamente, dois personagens não-narradores da trama são as figuras centrais de “Detectives Salvajes”: o chileno Arturo Belano e o mexicano Ulises Lima. Eles são, no fim de 1975, na Cidade do México, os líderes de um movimento poético chamado “real visceralismo”, possivelmente uma retomada de um círculo de mesmo nome nos anos 20 mexicanos, e logo se propõem a investigar o paradeiro de uma poeta daquele tempo chamada Cesárea Tinajero. Em uma seqüência narrativa que não vale explicar aqui para não tirar a graça, os dois rodam o mundo, separadamente, no espaço de 20 anos. Vão se amontoando os testemunhos sobre as estranhas e notáveis marcas que a dupla imprime por onde passa. Ao final, em mais de 600 páginas, correm mais de 40 contos entrelaçados (e outros mais soltos e autônomos) sobre a vida melancólica, errática e esquisita da dupla Lima/Belano.

Bolaño, assim, também amarra nisso tudo uma discussão sobre a evolução da literatura da América Latina (que eu nem tenho estofo e interesse de me entranhar) e, acho que mais importante, sobre a construção do que é a verdade para alguém, das histórias que se passam na sua vida e você tenta dizer, mas nunca com 100% de certeza: “bom, é assim que aconteceu”. Há uma amarração bem-feita na estrutura de “Detectives Salvajes”, mas os pontos em aberto são angustiantes, um vácuo que dá, uma sensação de falta de coerência e incompreensão proposital. É exatamente como quando tentamos juntar os detalhes de histórias que nos confrontam várias e várias vezes na vida. É um quebra-cabeça sem a certeza de solução. Desespere-se você ou não. Fica a seu critério.

Para encerrar o post, eu deixo dois trechos de “Los Detectives Salvajes” e um último do próprio Bolaño sobre o desafio na hora de compor sua escrita:

“Supe entonces, con humildad, con perplejidad, con un arranque de mexicanidad absoluta, que estábamos gobernados por el azar y que en esa tormenta todos nos ahogaríamos, y supe que sólo los más astutos, no yo ciertamente, iban a mantenerse a flote un poco más de tiempo”, personagem de Joaquín Font, em “Los Detectives Salvajes”

“Cuando terminé cerré los ojos y pensé en el temor de los hombres. ¿Por que nadie bajó a rescatar al niño, me dije. ¿Por qué su próprio abuelo tuvo miedo?, me dije. ¿Por qué, si lo dieron por muerto, nadie bajó a buscar su cuerpocito, cojones?, me dije. Después de cerrar el libro y estuve dando vueltas por mi oficina como un león enjaulado, hasta que ya no pude más, me tiré en el sofá, me encogí todo lo que pude y dejé que fluyeran mis lágrimas de abogado, mis lágrimas de poeta y mis lágrimas de gigante, todas juntas, revueltas en um magma ardiente que lejos de aliviarme me empujaban hacia la boca del pozo, hacia la grieta abierta…”, do personagem Xosé Lendoiro.

“Hemos llegado literalmente a un precipicio. No se ve forma de cruzar, pero hay que cruzarlo y ese es nuestro trabajo, encontrar la manera de cruzarlo. Evidentemente en este punto la tradición de los padres (y de algunos abuelos) no sirve para nada, al contrario, se convierte en un lastre. Si no queremos despeñarnos en el precipicio, hay que inventar, hay que ser audaces, cosa que tampoco garantiza nada”, Roberto Bolaño em entrevista

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