Escritos

Pra trás

A rua Pedro Vicente continua um lixo. Está melhor do que catorze, dez, sete anos atrás, enfim, sei lá a última vez que eu passei por lá, mas segue um perfeito exemplo das coisas desagradáveis de São Paulo. É cinza, é suja, é, em primeira instância, desinteressante. Não moraria lá, não montaria um comércio, não iria convidar alguém para tomar uma cerveja em algum boteco jesus-me-chama da cercania só pelo que a Pedro Vicente é o que é.

Só que eu passei por lá, quase diariamente, uns bons anos da minha vida, a caminho da Escola Técnica Federal de São Paulo. Uns tempos realmente especiais, especiais de eu me surpreender com tanta gente dizendo pensar a mesma coisa ou pelo menos não ficar indiferente ao que vivenciou por lá – algo que a princípio parece fazer sentido só para você, parece ser algo único e exclusivamente pertencente à sua vida. É quase soberbia, mas assim se compreende quando alguém conta empolgado alguma lenda da época da escola, ou mesmo da faculdade, e você já tem na manga um mínimo de três causos que pulverizam qualquer impacto do que acabou de ser contado. Penso eu que tudo isso ajuda a aceitar, mas não elimina a estranheza de ter uma afeição meio sufocante pela rua Pedro Vicente.

Ontem, cada vez que eu me aproximava da Federal e olhava para alguma parte da região, recordava de uma ou outra história, de algo que contavam e a gente aceitava sem discutir, porque era mais divertido acreditar que havia acontecido, mas todos os anos de jornalismo acabaram com isso, para o bem e para o mal. Ó o bar do Bigode, que na última semana de aula sempre era difícil de circular (ontem estava um fracasso deprimente) e onde eu passei mal várias vezes porque não sabia beber ou fumar. Olha a fábrica da Bella Vista e o cheiro artificial de morango que empesteava as primeiras horas da manhã e embrulhava os estômagos pouco forrados. Vê também o estacionamento onde pegaram o Dênis de Eletro ganhando um bola-gato (esse termo só deve ter existido na Federal) da namorada (é o que diziam, reforço).

O Ed serviu de guia para a “nova” Federal e a “velha” Federal. Impressionante como expandiram, como conseguiram aproveitar melhor o espaço (cacete, 60 mil metros quadrados), como trouxeram coisas novas. E como a Federal conseguiu mudar sem se descaracterizar. Isso eu achei bom, mas foi bizarro encontrar as salas de aula de 15 anos atrás intactas, a mesma parede, o mesmo piso, as mesmas marcas. Sério, foi o mais próximo que eu consegui de me transportar para o passado. As oficinas continuam com o mesmo cheiro. A cantina com aquele chão quadriculado. O caracol com o mesmo vidro. Reconheci uma mulher da secretaria e um bedel da minha época. Lá na parte das salas, cheguei a pensar que eu tinha sonhado aquele tour antes, e hoje vejo que sonhei mesmo.

Eu procuro sempre pensar como Miles Davis, que dizia não querer repetir nem mesmo seus melhores momentos porque eram “sobras da geladeira”, o que passou passou, e vamos nos preocupar com o que tem pela frente. Mas me permiti isso ontem e, ao olhar pra trás, concluí que eu melhorei, a minha vida melhorou, a vida do Ed melhorou, a Federal melhorou e até a rua Pedro Vicente melhorou. O mais estranho é que não me abandona uma sensação, para ser mais preciso, uma pergunta: como é que tudo foi dar errado?

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6 comentários sobre “Pra trás

  1. Play disse:

    Fala Shin!!!!

    Seu texto ficou animal, puta que pariu, parabéns!!!! Você conseguiu descrever com precisão coisas que só nós da federal vivenciamos, mas de uma forma que todos podem entender…

    Abrax e pode contar comigo como leitor assíduo!

    Play.

  2. chico Oliva disse:

    Olá sobrinho, querido!

    Gostei da escita. Parabéns. Acho que a veia jornalistica do seu avô João, pegou forte em voce. Parabéns e continuarei seu leitor.
    A propósito, deixe eu lhe contar um história que aconteceu com o famoso e saudoso disc-joquei “Big Boy”: Ele como era conhecedor da boa música e estava sempre atualizado com os últimos lançamentos aproveitava sempre pra lançar em primeira mão as últimas novidades do mundo da música. Fã que era dos Beatles e mantinha um progama semanal na Rádio Mundial do Rio “Cavern Club”, certa feita viajou a Londres e visitou os estúdios da Abbey Road, com a intenção de conseguir um autografo dos 4. Esperou horas de plantão na porta da gravadora, mas por azar seu os Beatles, saíram pela porta dos fundos, deixando o coitado do Big a ver navios.

    Um abração
    Chico Oliva

  3. Pingback: Melancolia agridoce « Pra Fora

  4. Ed disse:

    Falando em restos de geladeira e coisas atemporais, só li esse texto hoje (um pouco mais de 2 anos depois).
    A nossa história, e a da federal, continuam sendo escritas. Com mais de 100 anos, ela foi recentemente reformada e as salas de aula com piso, paredes e marcas de 15 anos atrás se foram.
    Não sei ainda se tudo deu errado, nem sei se deu mesmo, eu queria ter aproveitado mais o tempo que tive lá em todos os sentidos (música, estudos, esportes, amigos, lazer).
    Só sei que quando meu pai nasceu, a Federal já estava lá. Quando ele me falou o que era, eu fui, passei por ela e ela ficou, voltei mudado e ela ainda estava lá e hoje estamos juntos novamente, constantemente mudando.

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